Nota #11 [20/10/2015] (RJ I)

Curso de Formação Política

Acho que o CEII teria todas as condições de oferecer cursos de formação política para sindicatos, partidos e outras organizações (como a associação dos bombeiros, por exemplo).

Eu não sei como esses cursos poderiam ser. Acredito que seria um grande tiro no pé se tentássemos criar um curso baseado na apresentação de conteúdos teóricos no estilo de muitos outros cursos de formação – primeiro, porque não concordamos entre nós teoricamente, e segundo, porque nem todos se sentem em condição de contribuir com uma sistematização teórica (muitos de nós se relacionam com o CEII como se esse oferecesse um curso de formação política para eles). Pelo menos por enquanto, criar um curso desses significaria o trabalho concentrado de alguns poucos de nós, e não teria muito a cara do CEII.

A outra opção seria fazer como já tentamos anteriormente: oferecer aulas sobre os filósofos e textos que já estudamos. Mas o fato é que isso não é de interesse direto da maioria daqueles que buscam um curso de formação. Como um adendo a um curso mais básico, ou como um curso mais avançado, para quem vai relacionar esse conteúdo a uma experiência prévia, acho que rola, mas não é exatamente um material que já conseguimos “mastigar” de modo a torná-lo introdutório, ou sistematizá-lo, de modo a torná-lo formativo.

Na verdade, eu acho que seria muito mais apropriado se a gente usasse os autores que estudamos não como conteúdo do curso, mas como inspiração para pensar a forma do treco. Quer dizer, o que é um curso de formação depois do Mestre Ignorante do Rancière? Ou após o São Paulo de Badiou ou a crítica ideológica do Zizek? Além da vantagem de se encaixar na nossa própria investigação (estaríamos estendendo aos demais uma proposta que aplicamos a nós mesmos), eu acho que já podemos antever algumas propostas interessantes nessa direção.

Por exemplo, eu acho que a gente poderia propor um “curso de aproximação”, ao invés de um curso de formação. Penso aqui especificamente no PSOL: quanto do que se diz, se acusa, se imagina sobre a política partidária só é possível de pensar à distância da realidade! É só quando a gente não conhece as dificuldades logísticas, as resistências subjetivas e os demais problemas envolvidos com a militância na periferia, com a atuação no legislativo, com a organização sindical, etc, que torna-se possível tratar a realidade política como se fosse determinada por uma série de falhas morais individuais, por tendências ocultas e uma má vontade generalizada. Me parece que hoje não é a ignorância que mantém as pessoas distantes da política, a gente se mantém distante para poder continuar ignorantes da real catástrofe que é a esquerda hoje. Mas sem esse contato – e tem que ser coletivo, em alguma medida, pois senão é depressão na certa – é impossível também conhecer os problemas reais que precisam de soluções efetivas.

Um efeito interessante de propor um curso de aproximação política, que teria como principal função criar intimidade do aluno com os fracassos e dificuldades da política, é que não se formaria pessoas para se tornarem militantes em seguida, mas colocaríamos as pessoas pra militar em diversos lugares, para conviver em diversos espaços, para que se formassem. Essa inversão me parece bastante bem vinda. É claro que as dificuldades de um tal curso são enormes – a começar pelo fato de que não podemos esperar nem que um grupo de trabalhadores de um dado setor tenham tempo para “girar” e conviver com outros setores políticos, e nem que um vereador ou deputado tenha disponibilidade para ser acompanhado por militantes em formação durante a disputa pela aprovação de uma dada medida. Mas a ideia geral me parece muito boa – sem falar que faz uso de um princípio que o CEII utiliza e que considero cada vez mais essencial: a translocalidade, que obriga um processo local a se pensar de modo a sempre possibilitar a intervenção de quem não é dali. Uma espécie de internacionalismo construído debaixo pra cima.

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