NOTA #12 [06/06/2017] (RJ I)

Na questão do luto e da melancolia, pensei nesse fragmento aqui do Zizek (que não queria que fosse “resumido”, mas lido na reunião!):
“Giorgio Agamben ressaltar que a melancolia, em contraste com o luto, não é só o fracasso do trabalho do luto, a persistência do apego ao Real do objeto, mas também seu próprio oposto: “a melancolia oferece o paradoxo de uma intenção ao luto que precede e antecipa a perda do objeto” [5] . Este é o estratagema do melancólico: a única maneira de possuir um objeto que nunca tivemos, que estava perdido desde o início, é tratar um objeto que ainda possuímos como se já estivesse perdido. Portanto, a recusa do melancólico de realizar o trabalho de luto toma a forma de seu oposto: o espetáculo falso do luto excessivo e supérfluo por um objeto, antes mesmo que este seja perdido. É isso que dá um sabor único à relação melancólica de amor (…): embora os parceiros ainda estejam juntos e intensamente apaixonados, apreciando a presença um do outro, a sombra da separação futura já matiza a relação, de modo que eles percebem os prazeres do momento sob a égide da catástrofe (separação) por vir (na reversão exata da noção comum das adversidades presentes e duradouras com uma visão da felicidade que surgirá a partir delas).
(…) Na medida em que o melancólico faz luto pelo que ainda não perdeu, há uma subversão cômica inerente do procedimento trágico do luto em funcionamento na melancolia, como na velha piada racista sobre ciganos: quando chove, eles ficam felizes porque sabem que, depois da chuva, sempre há sol; quando há sol, eles ficam tristes porque sabem que, depois do sol, choverá em algum momento. Em suma, o enlutado faz luto pelo objeto perdido e “mata-o pela segunda vez” por intermédio da simbolização de sua perda; já o melancólico não é simplesmente aquele que é incapaz de renunciar ao objeto, ao contrário: ele mata o objeto uma segunda vez (trata-o como perda) antes que o objeto seja perdido de fato. Como devemos solucionar esse paradoxo de fazer luto por um objeto que ainda não está perdido, que ainda existe? A chave para esse enigma está na formulação precisa de Freud de que o melancólico não tem consciência do que ele perdeu no objeto perdido [7] . Aqui devemos introduzir a distinção lacaniana entre objeto e (objeto-)causa do desejo: enquanto o objeto do desejo é apenas o objeto desejado, a causa do desejo é a característica por conta da qual desejamos o objeto desejado (um detalhe, um tique, do qual geralmente não temos consciência e às vezes até mal percebemos como obstáculo, tanto que, apesar disso, nós desejamos o objeto).
(…) Dessa perspectiva, o melancólico não é principalmente o sujeito fixado no objeto perdido, incapaz de realizar o trabalho de luto pelo objeto, mas o sujeito que possui o objeto e perdeu seu desejo por ele, pois a causa que o fazia desejar o objeto retraiu-se, perdeu a eficácia. A melancolia, longe de acentuar ao extremo a situação do desejo frustrado, do desejo desprovido de seu objeto, representa a presença do próprio objeto desprovido do desejo por ele mesmo – a melancolia ocorre quando finalmente obtemos o objeto desejado, mas nos decepcionamos com ele.”
Retirado do “Alguém disse Totalitarismo?”, capítulo “A melancolia e o ato’”

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