NOTA #12 [17/07/2018] (RJ I)

“[Maurizio] Lazzarato baseia-se aqui [ao falar da produção do sujeito endividado] na ideia de Nietzsche, desenvolvida em Genealogia da moral, de que o que distinguiu as sociedades humanas, à medida que se afastavam de suas origens primitivas, foi sua capacidade de produzir um ser humano apto a prometer retribuir aos outros e reconhecer sua dívida para com o grupo. Essa promessa sustenta um tipo particular de memória orientado para o futuro (“Eu me lembro de que lhe devo, portanto vou me comportar de maneiras que me permitam pagar-lhe a dívida”), e assim se torna uma forma de governar condutas futuras. Em grupos sociais mais primitivos, as dívidas para com outros eram limitadas e podiam ser descartadas, enquanto com a chegada dos impérios e dos monoteísmos a dívida social ou divina de alguém tornou-se efetivamente impagável. O cristianismo aperfeiçoou esse mecanismo: seu Deus todo-poderoso significava uma dívida infinita; ao mesmo tempo, a culpa de alguém por não pagá-la era internalizada. O único modo de possivelmente pagá-la de alguma forma era por meio da obediência: à vontade de Deus, à Igreja. A dívida, ancorada nos comportamentos passados e futuros e com seu escopo moral, era uma formidável ferramenta de governo. Todo o restante devia ser secularizado.
Essa constelação faz surgir um tipo de subjetividade caracterizado pela moralização e pela temporalização específica. O sujeito endividado faz dois tipos de trabalho: o assalariado e aquele sobre seu eu, que é necessário para produzir um sujeito capaz de prometer, de pagar dívidas, e que está pronto a assumir a culpa por ser um sujeito endividado. Um conjunto particular de temporalidades é associado ao endividamento: para ser capaz de pagar (lembrar-se de sua promessa), a pessoa deve tornar seu comportamento previsível, regular e calculado. Isso não apenas milita contra qualquer revolta futura, com sua inevitável destruição da capacidade de retribuição; também implica uma eliminação da memória de rebeliões e atos de resistência coletiva do passado que interromperam o curso normal do tempo e levaram a comportamentos imprevisíveis. Esse sujeito endividado é constantemente exposto à inspeção crítica de outros: avaliações e objetivos individualizados no trabalho, análises de crédito, entrevistas individuais para os que recebem benefícios ou créditos públicos. O sujeito é assim compelido não apenas a mostrar que é capaz de pagar a dívida (e de pagar a sociedade por meio de comportamentos corretos), mas também a ter as atitudes certas e assumir a culpa por todas as falhas. É aqui que a assimetria entre credor e devedor se torna palpável: o “empresário de si mesmo” que deve é mais ativo que os sujeitos aos modos de governança anteriores, mais punitivos; entretanto, privado da capacidade de governar seu tempo, ou de avaliar seus próprios comportamentos, sua capacidade de ação autônoma é estritamente reduzida.” (Zizek, “Problemas no paraíso”, 1. Diagnose: Hors D’Ouevre, Estar à beira da dívida como modo de vida)

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