Nota #13 [20/10/2015] (RJ I)

As notas #8 do dia 06/10 e #9 do dia 13/10 trataram sobre as condições para repensarmos a forma do partido hoje. Esse fim de semana, conversando sobre a Lava Jato e a corrupção no Brasil, me deparei primeira vez a seguinte narrativa sobre o que aconteceu:

O esquema de corrupção do PT na verdade é fruto de uma implementação dos hábitos da esquerda – de cotização, para angariar fundos para a luta de classes, e de indicação política para os cargos, de modo a disputar a orientação do aparato do estado. Não haveria um plano propriamente – como se o PT tivesse planejado um ataque econômico ao Estado brasileiro, uma espécie de partido terrorista que toma de assalto os trâmites entre o público e o privado no Brasil para assim redirecionar as reformas e movimentações políticas do país – mas uma espécie de hábito que sempre foi praticado (e não sem razão – qual a outra maneira de manter um partido afastado das influências das empresas se não através da cotização?) e que (1) criou uma entropia enorme, pois a maior parte do dinheiro cotizado foi de fato embolsada por indivíduos e não repassada para processos coletivos e (2) que foi tratada pela oposição como uma “corrupção institucionalizada” (uso privado de recursos públicos) a despeito do fato de se tratar de uma corrupção essencialmente política, feita para financiar projetos, processos e medidas que interessam a uma dada parcela da população.

A constatação de que, até o PT, a corrupção começava no setor privado, aliciando figuras particulares do governo, e que depois dele, a corrupção teria se tornado parte do próprio governo, que indica cargos com o intuito prévio de que o indicado tenha como desviar recursos para o partido, envolvendo o setor privado de antemão em maracutaias generalizadas, se esclarece um pouco e a coisa muda um pouco de cara. Primeiramente, a questão deixa de ser se há ou não um desvio institucionalizado de recursos, mas sua finalidade: é verdade que esses recursos vão para o bolso de indivíduos ou eles são investidos na luta de classes? Que tipo de investimento é feito (financiar movimentos sociais, etc) e seria esse realmente o melhor destino para um capital dessa monta na mão da esquerda? Outra coisa que se tornaria mais inteligível é o tipo de fracasso que o PT nomeia: a transformação de um esquema de terrorismo econômico, baseado na generalização de práticas parasitárias do Estado por parte da esquerda, em um esquema de enriquecimento individual – e uma razão poderia ser que essa tática maluca não teria sido divulgada no partido como tal, sendo entendida antes como uma desculpa para no fundo justifica a traição da “cúpula” (que criticavam a base de puristas e tal). Ou mesmo que não houve efetiva elaboração dentro do partido para transformar essa potência profanadora em uma tática propriamente, aplicando-a à vida do estado sem preocupações reais com suas consequências. Em todo caso, achei que algo de importante passa a ser pensável uma vez que aceitamos que há uma relação mais profunda entre a esquerda e a situação atual do PT do que normalmente admitimos. E se torna necessário levar a sério outro tipo de relação com o dinheiro do que a cotização – seria hora de inserirmos o partido diretamente na esfera produtiva?

Comento isso porque as duas notas que mencionei debatem a relação entre o partido e o estado e se perguntam sobre a relação entre partido e trabalho – taí um estudo de caso interessante.

 

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