NOTA #13 [05/06/2018] (RJ I)

4. “A minha impressão é que esse viés é uma faca de dois gumes: por um lado, você quer inscrever a fragilidade do singular no ser, pensá-la desde a raiz, o que é uma forma de inscrever a política na própria fonte do pensamento, mas por outro lado isso parece esvaziar a política de autonomia: já sabemos de antemão que o melhor que a política vai poder fazer é demonstrar aquilo que podemos saber pela ontologia, não há nada para aprender sobre o singular com as diversas singularidades dos processos políticos.

A impressão que me dá é que o pano de fundo dessa posição metodológica-política é dizer que, para defender a política radical da acusação de ser uma ficção, é preciso defender que a política radical “toca o ser”, e a sua proposta é mostrar que ela não toca o ser no sentido do “toca a natureza da essência humana”, mas “toca o ser da singularidade” – razão pela qual ontologia, singularidade e política estariam amarradas. Mas o custo desse enraizamento da questão no ser é alto, eu acho – pode certamente ser defendido, mas acho que seria preciso explicitar isso – porque caso contrário a capacidade de um processo político de pensar sua própria singularidade fica comprometida, eu acho. Tenho certeza que essa não é a sua proposta, mas pelo texto fico com a impressão que esse caminho é difícil de evitar seguindo essa rota.

Por outro lado, logo no primeiro parágrafo eu tive uma impressão que, apesar de não se confirmar ao longo do que você escreveu, me pareceu bater bem mais com o que eu entendo das suas ideias, de te ouvir falar e tal: quando você colocou a questão central “que é que faz com que algo ou alguém seja justamente o que é, e não nenhuma outra coisa?” eu na hora pensei – filho da puta, ele vai mostrar que esse ” justamente” é na verdade o elo entre justiça e singularidade, que o ser não pode garantir a singularidade, que o ser-singular é uma amarração entre o ser, o não-ser e a justiça. Me parece que a questão da singularidade e da sua relação, por um lado, com a política e, por outro, com a ontologia, passa muito mais pelo desfiladeiro do ser e do não-ser do que pela questão da essência e da existência. Eu diria até que o singular é aquilo que, demonstrando que a partição entre o ser e o não ser não é possível – que não dá pra colocar tudo o que é de um lado e o que não é do outro, em uma divisão consistente e sem restos – convoca a justiça, a questão do que é “ser justamente”. Razão pela qual a singularidade é uma questão que a ontologia coloca para a política, e que é respondida de maneira singular pelos diferentes processos históricos. Enfim, tô viajando aqui. Mas só pra dizer que eu associo muito mais essa linha de pensamento com você do que a impressão que tive em seguida do texto, que me pareceu adotar um caminho de esclarecer termos, retomar uma tradição de exegese heideggeriana que teria que ser muito forçada e deformada para desembocar nessa outra perspectiva – deixada correr solta, ela me parece reduzir o singular à ontologia e esvaziar qualquer necessidade de pensar a singularidade singularmente, isso é, disposta em sua apresentação na história, e de dentro de seu próprio desenrolar político.”

 

Eu acho que esse risco de esvaziamento da política, da perda da sua autonomia em relação à ontologia, apareceria se o projeto fosse fundamentar a política na ontologia. Mas não é.

 

A ideia é pensar a singularidade como conceito-limite da política, como vc bem notou. A estratégia que escolhi para isso seria mostrar como, no que se entende desde a filosofia grega por “filosofia primeira” e depois ontologia, a singularidade enquanto tal é excluída da epistéme dos primeiros princípios e causas do ser enquanto ser. Mas essa exclusão é exclusão inclusão ou inclusão exclusiva (uma foraclusão?), análoga, se não mesmo homóloga à que Agamben descreve quando da “fundação” da soberania. Ou seja: é uma exclusão que precisa ser incluída na própria delimitação e definição daquilo de que é excluída, sob pena de isso mesmo não ser o que é.

 

Ora, isso que, nessa operação, é excluído e, nesse sentido, está no limiar disso sobre o que fala a ontologia, aparece como o existente, a “substância primeira”, que é substrato do real, sujeito de toda enunciação, mas que, enquanto tal, fica não tematizado, porque o que a ontologia retém e pode reter dele é a “substância segunda”, a essência. A existência fica, pois, de fora — nos limites — da ontologia. É nela que a ontologia encontra seu limite, justamente porque ela, a ontologia, é uma ciência e, enquanto tal, trata do universal. E a existência é o traço do singular.

 

A hipótese é que é nesse limite da ontologia é que está a política (o que, em Platão e Aristóteles, inclui explicitamente a ética, como é preciso (nem existia essa distinção, na real)). A política está às voltas com o singular, mas com isso ela faz limite com a ontologia e é por esse jogo com esse limite que as duas se constituiriam como campos autônomos, mas interrelacionados. Uma hipótese que vem junto com essa é a de que Platão sacou isso ao colocar no limite da sua ontologia uma ideia (do) singular ou, antes, a própria ideia em sua singularidade: a ideia de bom. Ideias não são conceitos, mas exemplos exemplares: singulares universais. Daí que a política de opõe à ontologia, de uma maneira mais precisa, não como o singular ao universal, mas como a universalidade concreta (que se constrói sobre e como singular) à universalidade abstrata (que se constrói pela exclusão inclusiva do singular) — de modo que o decisivo é o que está no meio: o que está no meio: o singular.

 

Nesse sentido, se a ontologia trata do ser, a existência, ou a singularidade, tratam do limiar entre o ser e o não ser, como vc apontou. As ontologias do século XX que tentaram incluir a singularidade “nossa” na própria ontologia acabaram encontrando de certa maneira seu limite, ontológico e de certa maneira linguístico: tiveram que incluir o nada aí, e coisa como “decisão”, “liberdade” e estranhos conceitos “ontológicos” que demandavam não descrição mas… engajamento e decisão existencial individual e coletiva. Conceitos, no limite, ético-políticos, portanto. Daí (apenas para tocar na sua formulação ceiisacional, introduzindo o conceito de justiça, mas sem elaborar muito ainda) a questão ontológico-política fundamental é justamente uma questão de justiça: a cada um — ontologia ou política, onde “ou=singularidade” (e é um “ou” inclusivo, um “e/ou” — o que é devido.

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