NOTA #13 [06/06/2017] (RJ I)

Post do Tutor 097 tirado do curso EAD sobre o Zizek do CEII.

“Obrigado Márcio por participar do Fórum de debate. Suas perguntas são sensacionais! Há inúmeras pontuações sobre os temas levantados por você.

O SUJEITO INCÔMODO é um ótimo livro para se começar a “mapear” os adversários, as fontes e os temas que Žižek quer trabalhar. O livro basicamente quer resgatar o debate tão desgastado nos anos 70, 80 sobre o Sujeito. Na Introdução ao livro isso fica bem claro com a sua “paródia” às primeiras linhas do Manifesto Comunista. Em seguida, o livro divide-se em três partes (que de certo modo tenta dialogar com os adversários suas fontes, etc): o primeiro deles gira em torno de Kant, Heidegger e Hegel (uma das leituras que Žižek faz dos livros de Hegel – eu recomendaria fortemente esse trecho); a segunda parte trata do embate com os “pós-althusserianos” – Balibar, Rancière, Badiou e Laclau (nessa parte algumas de suas indagações podem ser respondidas); e a terceira parte Foucault e Butler.

Quanto às suas perguntas, vou tentar respondê-las o mais simples possíveis na ordem e assim poderíamos continuar com os debates, tudo bem? Vamos lá!

(1) Sobre o “nó borromeano”, colo aqui as mesmas considerações que apresentei ao companheiro Felipe: “Realmente há várias formas de amarrar borromeanamente as cordas, que inclusive é tema de várias das aulas de Lacan em seus últimos seminários. Bom, quando a gente pensa naqueles três círculos amarrados, o que deveria vir a mente é que aquela forma trinária de amarrar as cordas é o modo mais simples, de grau mais baixo (apenas como ilustração, no Wikipédia há um breve resumo da complexidade pelas quais os nós borromeanos podem chegar – https://en.wikipedia.org/wiki/Borromean_rings). O mais importante de tudo é que todo “nó borromeano” tem de ter um enlace, senão não é nó (talvez as imagens dos círculos sobrepostos deva ser apenas uma referência remota ao nó). A forma de Žižek é esta. Se você estiver mais interessado sobre essa temática do nó eu sugeriria ler a Introdução do livro O sublime objeto da ideologia (trata-se do primeiro livro do Žižek em inglês, de 1989), e a Introdução do meu livro Para uma filosofia do espírito objetivo materialista disponível aqui: https://www.academia.edu/32488510/Para_uma_Filosofia_do_Esp%C3%ADrito_Objetivo_Materialista_do_Direito_Cr%C3%ADtico_%C3%A0_Cr%C3%ADtica_do_Direito” Reitero que vamos abordar essa questão nos próximos vídeos…

(2) De certa forma Žižek tenta reconstruir o conceito de ideologia com aparelhos da psicanálise e de Hegel. É uma tentativa de superar o conceito até então proposto de ideologia por Althusser por uma via diferente. Basicamente, na tradição marxista, há ao menos três sentidos para a ideologia: 1) a ideologia como falsa consciência da realidade, uma representação que tentaria enganar e obstruir a potência proletária; 2) ideologia como um conjunto de ideias e opiniões – sentido vulgar de ideologia; 3) a ideologia como luta de classes, ou seja, a ideologia burguesa, a ideologia proletária. Althusser tenta propor o conceito de Ideologia como uma visão de mundo que constitui um sujeito, que transforma um indivíduo em um sujeito (chamada interpelação). Sobre isso eu sugeriria ler os APARELHOS IDEOLÓGICOS DE ESTADO. Žižek por sua vez apresenta duas críticas básicas à Althusser: a primeira seria que a montagem althusseriana não permite que a experiência seja efetivada (não teria lugar a experiência proletária, por exemplo) e que a interpelação transformava um indivíduo que já “esperava ser sujeito” em sujeito, uma espécie de antecipação. Então, se em Althusser temos um sujeito que não sabe o que o transformou em sujeito mas que agora sabe que é um, em Žižek temos um sujeito que sabe muito bem que foi transformado e por isso agora é um sujeito (como Žižek inverte o mote marxista “eles não sabem o que fazem e por isso o fazem” em “eles sabem muito bem o que fazem e por isso mesmo o fazem”). Sendo assim, é possível afirmar que Žižek tem uma inspiração de Althusser na sua leitura de Marx, assim como seus adversários “pós-althusserianos” também.

(3) É muito curiosa essa pergunta porque parece apresentar uma forma brasileira de ler Marx, Márcio. Aqui há dois deslocamentos fundamentais que, por exemplo, para Žižek não há: 1) uma (pseudo)tensão entre o pensamento de Althusser e o de Lukács; 2) e como derivação disso, ou uma “virada ontológica” de Marx ou uma “virada historicista” de Marx. Isso não é óbvio para Žižek. Assim, acho que é um pouco “nenhum dos dois”. Para Žižek o marxismo é uma corrente mais ou menos homogênea em que estão reunidas duas formas de operações teóricas – a investigação do modo de produção capitalista (materialismo histórico) e a filosofia marxista sobre outras questões, atualizações de categorias, de articulações, etc (materialismo dialético). Portanto, o marxismo ainda continua sendo uma crítica à economia política. O que serve para Žižek especificamente do marxismo seria: a) sua tradição prática e partidária, composição coletiva, organizacional (crítica ao partido, crítica à organização, etc.); b) algumas categorias fundamentais em conjunto com a psicanálise e com Hegel (ideologia, fetichismo da mercadoria, mais-valor, burguesia, proletariado, etc.).

Seria mais ou menos isso, Márcio?

Agradeço desde já e aguardo um retorno, companheiro.

J.”

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