Nota #2 [03/09/2012]

Não sei se parece um exagero, mas me pareceu possível produzir uma associação crítica ao que Marx diz a respeito do “cidadão” em Sobre a Questão Judaica e o que Rancière expõe sobre, digamos, aquilo que uma dada práxis de esquerda formula sobre o “trabalhador” em Comunistas sin Comunismo?. Acredito que em algum nível há um ponto de apoio entre a “abstração burguesa”, por assim dizer, que reconhece no cidadão a síntese/ resultado das qualidades potencialmente emancipatórias do homem e a “abstração de esquerda” quando debruçada sobre o trabalhador.

“Na sua realidade mais imediata, na sociedade burguesa, o homem é um ente profano. Nesta, onde constitui para si mesmo e para outros um indivíduo real, ele é um fenômeno inverídico. No Estado, em contrapartida, no qual o homem equivale a um ente genérico, ele é o membro imaginário de uma soberania fictícia, tendo sido privado de sua vida individual real e preenchido com uma universalidade irreal” [2010, p. 40-41]

Penso que tal descrição a respeito do caráter do “homem no Estado”, isto é, do cidadão, feita por Marx no sentido de apontar sua “soberania fictícia” e sua “universalidade irreal” guarda alguma tradução possível para pensarmos “o homem do Estado comunista”, por assim dizer, em Rancière. Há algo de vazio no “trabalho concreto” em termos emancipatórios à luz da hipótese comunista assumida por Rancière a partir da reflexão de Alain Badiou frente a qualidade histórica que o trabalho assumiu em experiências comunistas.

Assim como cidadão exprime conceitualmente pouco daquilo que chamaríamos de “emancipação”, penso que trabalhador incorre – diante da provocação de Rancière – no mesmo erro ou padece da mesma insuficiência. Quando o marxismo operava de modo negativo diante de categorias “burguesas”, como cidadania, em geral, as opunha através de categorias “socialistas”, como proletário. Acredito que Rancière procura expor que há uma dissociação [ou, no mínimo, houve] nas experiências comunistas entre “trabalhador” e “práticas de emancipação” e que tal distância corresponde a falta de uma ontologia outra – que operasse forças outras que não as presentes na sociedade burguesa, mesmo aquelas que, nesta sociedade, seriam negativas [apresentadas como anticapitalistas]. Digo, não seria, me parece, tarefa de uma sociabilidade comunista fazer uma ode ao trabalho ou ao trabalhador; não seria tarefa do comunismo potencializar a capacidade criativa e produtiva da humanidade porque estas não são negligenciadas pelo capital [ao contrário, na verdade]; se há alguma tensão entre trabalho e capital tal tensão diz respeito a própria estrutura de funcionamento da sociedade burguesa – quem aposta que a contradição é o ponto final do segundo, desconhece que esta é seu ponto de partida.

Penso que ao dizer “un trabajador comunista es um trabajador que afirma su capacidade de hablar y hacer leyes sobre los asuntos comunes em vez limitarse a hacer sólo su trabajo como um obrero ‘útil’” [p.170], Rancière procura estabelecer que a materialização da capacidade criativa e produtiva do homem não pode se submeter à regência de determinados imperativos de realização – como, por exemplo, a “utilidade deste fazer na construção do comunismo”. O primado da utilidade da ação não é particular a uma sociabilidade comunista, ao contrário. Se pensarmos, por exemplo, no caso de teóricos e militantes comunistas como Karl Korsch que tiveram suas obras negligenciadas [e mesmo atacadas] por se ocuparem de problemáticas consideradas pouco úteis ao projeto comunista vemos como o eixo do utilitarismo esvazia a potência de tal projeto e como, por sua vez, a realização deste passa, em certo sentido, por uma forma de sequestro ou privatização da potencialidade do comunista. Parece-me que a “privatização comunista” que Rancière menciona na conferência se refere a afirmação de um modelo de organização social, com sua respectiva distribuição de funções [no caso, não-burguesa], que sequestra a potência de cada um sob uma razão emancipatória. Que se irrealiza dado que, nos termos de Joseph Jacotot, diz Rancière:

“Cualquiera puede emanciparse y emancipar a otras personas, de tal manera que la humanidad toda este formada por indivíduos emancipados. Pero uma sociedade nunca puede emanciparse” [p.169]

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