Nota #2 [03/12/2012]

Seguindo a leitura de Como Marx inventou o sintoma?, de acordo com o programa zizekiano, no sentido de examinarmos as posições compartilhadas no método de Freud e Marx para a observação do “mundo dos sonhos” e o “mundo das mercadorias”, respectivamente, fomos A Interpretação dos Sonhos do pai da psicanálise.

Partindo do suposto que na análise do sonho, segundo Zizek, para Freud inexiste uma noção de “conteúdo”, de “cerne oculto”, de “substância” por trás da forma que figura o sonho; de que, portanto, a ideia de interpretação do sonho não implica numa qualidade de desvelamento que nos apresenta dada “verdade”, temos o seguinte:

Pensando “sobre o trabalho do sonho” [p126], Freud pondera que é possível distinguirmos “duas funções isoladas na atividade anímica durante a formação do sonho: a produção dos pensamentos oníricos e sua transformação no conteúdo manifesto” [idem]. O que, me parece, significa que no trabalho, na arquitetônica, na dinâmica do sonho existem dois processos que são qualitativamente diferenciados, cuja articulação resulta no sonho.

Os pensamentos oníricos, se bem entendi, o pensamento manifesto do sonho, se refere à narrativa, à significação do sonho, àquilo que expressa o nexo entre as imagens em nosso sonho e seu encadeamento no mesmo. Trata-se de uma operação absolutamente racional, dotada de sentido no interior do próprio sonho. O conteúdo manifesto, digamos, seria a imagem destes pensamentos oníricos. Trata-se da “cena” propriamente, das coisas, dos objetos. De como este pensamento onírico, no sonho, aparece – são os “símbolos”, digamos.

O que Freud parece insistir é que nesta estrutura posta [conteúdo manifesto + pensamento latente] parece haver uma tendência de tomarmos o CM como uma forma que se observada com atenção acessamos seu conteúdo – localizando-o no PL. No entanto, o PL, a significação do sonho, a narrativa que estrutura e encadeia as imagens em nossa cabeça em estado de sono são “inteiramente racionais e formados com dispêndio de energia psíquica”. Nesse sentido, me parece que, para Freud, a observância do sonho nele mesmo revelará o sentido deste e nada mais. Ou seja, ao se trabalhar sob o binômio forma/ conteúdo baseado na articulação entre CM/ PL no sonho não acessamos o inconsciente propriamente. O pensamento no sonho dá-se numa dimensão particular, sem dúvida, mas absolutamente racional. Pois o PL por mais que, do ponto de vista do pensamento de vigília, pareça “fantástico” na verdade é uma forma de pensamento em nível consciente/ pré-consciente que apenas se traduz de forma específica [dilatada] em nosso estado de sono. Me parece que o PL é um tipo de pensamento do sonho. Fundado num acontecimento qualquer, capturado por nós, em nosso dia a dia, que se plasma no sono de modo polifórmico. Identificável na plasticidade das imagens que são executadas durante o sono. Na ampla variedade de formas que nele, potencializadas pelo estado de sono, se apresenta.

“O trabalho do sonho não é apenas mais descuidado, mais irracional, mais esquecido e mais incompleto do que o pensamento de vigília; é inteiramente diferente deste em termos qualitativos e, por essa razão, não é, em princípio, comparável com ele” [p127]

O pensamento no trabalho do sonho, verificado na articulação e nos nexos entre o CM e PL, sem dúvida possui uma forma distinta daquela de quando estamos acordados. A energia psíquica tende a realizar, no trabalho do sonho, alterações de padrões de ordem muito complexa. Que deformam, é claro, aquilo que temos em mente no pensamento de vigília, quando acordados, mas também as próprias imagens [já “distorcidas”] que se verificam no sonho.

“esse produto, o sonho, tem, acima de tudo, de escapar à censura, e com esse propósito em vista, o trabalho do sonho se serve do deslocamento das intensidades psíquicas a ponto de chegar a uma transmutação de todos os valores psíquicos. O pensamento tem de ser reproduzidos, exclusiva ou predominantemente, no material dos traços mnêmicos visuais e acústicos, e essa necessidade impõe ao trabalho do sonho uma consideração à representabilidade, que ela atende efetuando novos deslocamentos” [p127]

Sendo o esforço de Freud [ZIZEK, p.300] a eliminação da ideia de que o sonho é um distúrbio proporcionado pelo sono, que trata de pensamentos em confusão e sem sentido algum; ou mesmo de que deveríamos na observação do sonho procurar algo que nele seja um conteúdo propriamente, algo que seria seu “sentido oculto”, me parece que a pergunta seria [já que devemos centrar atenção nessa forma ela mesma do sonho] por que sonhamos de determinado modo.

Isto é, por que no infinito de formas de sonhar, sonhamos de determinado modo? Me parece que o inconsciente, o desejo, estaria neste lugar. Mas ainda não sei se é o caso.

Uma ideia sobre “Nota #2 [03/12/2012]

  1. Na reunião passada, analisamos um texto difícil de Freud, onde se mostra que a chave do Sonho não é um significado oculto mas o trabalho de articulação de um material fragmentado. Esse trabalho de deslocamento e condensação deve ser associado às operações poéticas realizadas pela língua, que são: a metáfora e a metonímia. A interpretação dos sonhos requer portanto a hipótese do inconsciente estruturado como linguagem.
    Não vou dizer que tudo está absolutamente claro para mim. Qual a relação entre o sujeito e a linguagem? Como compreender a inserção da pulsão no campo do sentido?
    Eu me prontificaria a apresentar um dia, no CEII, um importante texto de Jakobson que influenciou boa parte do ensino de Lacan: Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia.
    Acho que devemos aprofundar em Marx tanto quanto em Freud. A leitura do Capital será mais do que oportuna. Acho que precisamos procurar uma “Sede” para o Ceii. Um abc a todos.

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