Nota #2 [03/12/2013]

Uma questão ingênua, mas que me parece importante de colocar, em relação a tal “metaontologia” do Badiou é a seguinte: é relevante a proximidade que parece se estabelecer entre a teoria dos conjuntos e o movimento político coletivo? É claro que isso parece um comentário bastante extrínsico ao projeto Badiouiano, mas é inegável que tem algo de muito diferente em jogo na posição do Badiou quando comparamos com o lugar da ontologia no marxismo em geral. No marxismo, por exemplo, no “velho Lukacs”, nosso problema é algo como: “existem pessoas por aí, trabalhando, como damos conta, partindo dessa constatação, da existência da socialidade?” Isto é, como que saímos do individual e apreendemos o social? É claro, a solução sempre vai mais ou menos assim: essa apreensão é sempre meio obscura e insatisfatória, mas o fato é que o indivíduo já é social. Ao invés de chegarmos no campo do ser social, acabamos pressupondo que ele já estava lá desde o começo e que portanto nem precisamos queimar tanto a mufa.

O Badiou, por outro lado, bola uma ontologia cujo modelo é a matemática e, mais especificamente, a teoria dos conjuntos axiomática. Esse último termo é muito importante: a teoria dos conjuntos se divide entre teoria ingênuaaxiomática, a primeira é aquela mais intuitiva, onde a gente chama elementos de x, y, z e conjuntos de X, Y, Z – assim, podemos contar “o conjunto X de todas as maçãs”, sabendo que X é o conjunto, a coleção, e x, y, z, etc, serão os elementos, as frutas “elementares”. Não precisamos entrar agora em alguns dos problemas e limites de uma teoria intuitiva ou ingênua como essa, por mais que o próprio Cantor tenha, em certa medida, sido responsável pela formalização inicial da teoria dos conjuntos nesses termos (e por mais que muitos desenvolvimentos recentes busquem extrair consequências da teoria cantoriana original). O importante é opormos essa teoria à teoria axiomática, onde só existem conjuntos. Isto é: X, Y, Z nomeiam conjuntos, e x, y, z também são conjuntos. Logo vemos que fica mais difícil exemplificar essa teoria com objetos do dia a dia – como maçãs x, y, z, colocadas num saco de compras X. Poderíamos, talvez, usar uma situação como essa: um país X tem estados x, y, z, esses mesmos compostos por cidades a, b, c, essas compostas por bairros p, q, r, compostas por quadras f, g, h, compostas por prédios… e, por fim,  compostas por pessoas joão, maria e zézinho. Esbarramos – quando chegamos nos indivíduos ditos “humanos” – de volta na teoria ingênua, composta de conjuntos e elementos. Diferentemente, a teoria axiomática pretenderia aqui continuar, contando “joão” como um conjunto ele mesmo composto de outras coisas e por aí vai. E onde para a conta? Um dos axiomas da teoria dos conjuntos decide isso por nós: no vazio. Existe um conjunto vazio, que não contém nada, e que é o conjunto capaz de “frear” a multiplicidade infinita de conjuntos de conjuntos de conjuntos…

Ora, a socialidade é, mesmo numa apreensão muito simplista, uma questão de coleção ou conjunto de indivíduos. Lukacs mesmo não descordaria que só podemos chegar à tese “o ser humano é um ser social” após o ser genérico se expressar concretamente nos frutos do trabalho e, mais principalmente, no caráter de circulação social – isto é, de circulação entre uma coleção de indivíduos. Há, me parece, uma afinidade entre o ser e a socialidade para Badiou – por mais que de maneira alguma essa afinidade pareça ter um papel determinante na decisão Badiouiana pelo “múltiplo puro” como decisão quanto ao ser. O difícil não é mais entender o ser social – tudo por aí tem a estrutura do ser social, tudo o que pode ser contado, por mais abstrato que seja, é um múltiplo – mas entender como que numa ontologia em que só temos a multiplicidade de multiplicidades e o vazio, algo como o “zézinho” pode ter lugar. A resposta de Badiou, me parece, é dizer que não há ser do “zézinho” – ou que esse ser não tem privilégio nenhum. É dentro de uma lógica dos mundos – assunto do “Ser e Evento 2” – que as determinações da identidade vão começar a ganhar lugar. Em todo caso, essa posição não tem precedentes na história do marxismo, e parece ter consequências interessantes e dignas de serem exploradas.

 

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