NOTA #2 [12/02/2016] (RJ II)

Por que a formulação de Ideia feita por Badiou é tão cara ao CEII, tocando profundamente naquilo que o CEII realiza, de modo que sem a Ideia badiouiana o CEII não existiria como tal?

A Ideia proposta por Badiou rompe o abismo entre teoria e prática. Vejamos a situação contemporânea. A esquerda majoritariamente dirá que há muita teoria e pouca prática. Uma das críticas com maior volume proferida pela esquerda é que vivemos num mundo onde os que se dizem progressistas são demasiadamente teoricistas. O que há no fundo da questão é que uma transformação realmente revolucionária das coisas exigiria prática, muito mais do que teoria.

Mas aqui Althusser nos é caro: o fazer teórico já é prático, na medida em que já é político. Peguemos o comentário de Althusser à vida e obra de Lenin (no texto Lenin and philosophy): o grande gesto de Lenin ressaltado por Althusser é que aquele teria introduzido a luta de classes no terreno da filosofia: a partir de Lenin, portanto, o fazer filosófico já toma parte na luta de classes.

Ora, a exigência por prática, prática e mais prática pode estar em certo acordo com o lema do capital: a urgência, os atos praticados desenfreadamente, a correria. Deparamo-nos com um paradoxo feroz: o mundo precisa ser transformado logo, há pessoas sofrendo cada vez mais devido à exploração capitalista, mas como transformá-lo se os atos que se julgam emancipatórios não respondem à demanda de transformação mas de adequação com o sistema capitalista? Isto é, como pode a esquerda querer transformar o mundo lutando sob a ética do trabalho?¹

Voltando à Ideia de Badiou, ela responde um velho anseio da filosofia: como traçar uma relação entre a especulação e a ação? Para Badiou a Ideia é um traçado material no mundo: ter uma Ideia na cabeça é tê-la já em mãos e pés. Não é à toa que a Ideia esteja ligada a momentos que só podem ser realizados “praticamente”: a ciência, o amor, a arte e a política.

Eu diria que se quisermos entender bem o CEII, deveríamos entender a relação entre teoria e prática, desde as lições de Althusser às de Badiou.

¹ “Se, desenraizando do seu coração o vício que a domina e avilta a sua natureza, a classe operária se erguesse com a sua força terrível, não para reclamar os Direitos do Homem, que não são senão os direitos da exploração capitalista, não para reclamar o Direito ao Trabalho, que não é senão o direito à miséria, mas para forjar uma lei de bronze que proíba todos os homens de trabalhar mais de três horas por dia, a Terra, a velha Terra, tremendo de alegria, sentiria saltar nela um novo universo… Mas como pedir a um proletariado corrompido pela moral capitalista uma resolução viril?” (Paul Lafargue, Direito à preguiça)

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