Nota #2 [19/10/2012]

Em seu texto Começar do começo de novo, Zizek coloca a seguinte pergunta como um pilar fundamental da reformulação da ideia comunista:

“Como devemos então revolucionar uma ordem cujos próprios princípios estão se revolucionando constantemente? Mais que uma solução para os problemas que confrontamos hoje, o comunismo é em si mesmo o nome de um problema” (Sobre La Idea del Comunismo, p.241-242)

Note que essa questão não é simplesmente um obstáculo no caminho de desenvolvimento da hipótese comunista – para Zizek, esse problema é o próprio nome da Ideia, isso é, aquilo de mais próximo ao próprio comunismo a que temos acesso hoje. Nossa distância do comunismo é medida pela distância que mantemos dessa questão fundamental.
Observemos que a pergunta é construída quase como um paradoxo:

a) há uma ordem cujo princípio é a mudança constante.

b) é preciso mudar essa ordem.

Temos aqui duas estruturas paradoxais. A primeira é interna à clausula a): trata-se da definição de uma estrutura, a capitalista, em que a ordem é a desordem. Ou seja, temos que pensar uma estrutura que é, em si mesma, uma constante desestruturação. O segundo paradoxo depende do primeiro: como é possível falar em mudança (b) da mudança (a)?
Analisemos a primeira asserção com mais cuidado.

O que significa dizer que o capitalismo é uma ordem “cujos princípios estão se revolucionando constantemente”? O aspecto paradoxal dessa assserção desaparece quando nos voltamos para alguns dos traços mais evidentes da racionalidade que organiza o espaço social hoje. Consideremos, por exemplo, a lógica por trás do funcionamento do mercado da arte hoje (exemplo interessante, uma vez mobiliza a mesma esfera de ideais que a política): uma obra de arte contemporânea não tem valor de uso nenhum e esse é o motor de sua valorização. Isso é: o valor de mercado da obra de arte é proporcional a sua capacidade de mobilizar os restos formais que pelos próprios critérios da arte não tinham utilidade ou valor. Afinal, não nos é familiar a justificativa de que cada obra de arte é suposta re-definir o que a arte é, indo “além dos limites” do que entendiamos como arte até então? A lógica da arte hoje é justamente estar “se revolucionando constantemente”.

O ponto crucial é que a maneira que essa alteração constante dos próprios princípios do que é arte aparece é produzindo tanto novidades quanto o espectro ideológico do que seria o “velho”, afim de diferenciar-se dele. Por exemplo, para que faça sentido essa pululação de obras de arte cujo único critério real de produção é ‘romper com os limites’ anteriores do que é arte (i.e. uma constante revolução), é preciso construir a idéia de que, até a implementação dessa lógica, a arte era “absolutista”, com seus critérios fixos e antiquados de representação, que eram “impostos” sobre todos nós de maneira forçada. Ou seja, a ordem que revoluciona a si mesma incessantemente produz também o pano de fundo contra o qual as “pequenas diferenças” que produz possam ser tomadas por verdadeiras diferenças – nesse caso, a ideia absurda de que a arte clássica e moderna foram movimentos guiados por princípios puramente aristocráticos, sem verdadeiro alcance crítico ou popular, etc. Vemos assim, que a cláusula a) da pergunta paradoxal de Zizek contém um movimento duplo: a ordem capitalista está em constante revolução na mesma medida em que constrói o critério ideológico daquilo de que se distancia. Até hoje, no campo da política, o comunismo existe apenas como um tal espectro, o fantasma de uma série de inspirações totalitárias que nossa política democrática neo-liberal mantém como pano de fundo, para que a reprodução da lógica das minorias possa ser tomada como um feito de grande valor. O capitalismo é, portanto, um processo de desordem – posto que o processo de valorização no Capital busca extrair valor daquilo que está em excesso ao valor – mas é também uma ordem – um princípio invariante que só aparece enquanto tal no reflexo espectral das fantasias que constrói para contrastar com seu próprio movimento. A cláusula a) contêm, portanto, uma contradição complexa, mas verdadeira.

Chegamos assim ao cerne da questão, a cláusula b). O que significa alterar uma ordem construída como desordem? De que maneira a mudança revolucionária articulada em b) pode se diferenciar da mudança revolucionária do Capital, articulada em a)?

Mobilizando uma das mais difíceis ideias hegelianas, Zizek formula sua hipótese:

“A resposta hegeliana é que o problema ou obstáculo é sua própria solução: não no sentido simples de que o capitalismo já é ele mesmo o comunismo, como se só faltasse operarmos uma inversão puramente formal. Minha conjectura é a seguinte: e se o capitalismo dinâmico de hoje, precisamente na medida em que é instável, uma constante desorganização de toda ordem fixa, abrisse o espaço para uma revolução que rompesse o círculo vicioso de ‘revolução/re-inscrição’, isso é, que não seguiria o modelo de uma explosão evental depois da qual as coisas voltam ao normal, mas assumiria a tarefa de estabelecer um novo ordenamento contra a desordem capitalista global? Mais além da rebelião, deveríamos passar explicitamente, e sem vergonha, a respaldar uma nova ordem. (Não é essa uma das lições da fusão financeira permanente?). Essa é a razão pela qual, se queremos re-atualizar a Ideia comunista, é essencial que nos concentremos no capitalismo; o instável capitalismo dinâmico de hoje altera radicalmente as coordenadas da luta comunista: o inimigo já não é mais o Estado que deve ser subvertido a partir de seu ponto de torção sintomática, mas um fluxo que se revoluciona permanentemente.” (Sobre La Idea del Comunismo, p.242)

O que torna a conjectura zizekiana aparentemente simplista – mas, na verdade, profundamente complexa – é que assim como vimos a duplicação ou divisão da categoria de revolução (negação do valor, produzindo valorização, versus negação da negação do valor, produzindo outra coisa que não a reprodução do Capital) Zizek nos convida a dividir também a categoria de ordem: existe a ordem que só aparece como espectro– como fantasma aterrorizante do que a arte e a política já foram no passado – e existe a ordem como princípio real de organização. 

Um dos maiores pecados da esquerda é confundir essas duas categorias. Estamos mais do que acostumados a aceitar os limites relativistas impostos sobre todos os campos do conhecimento, discutindo e negociando as pequenas diferenças e minorias como se esse fosse o todo da política justamente porque aprendemos a considerar a ordem, a disciplina e o Estado forte de acordo com os critérios do espectro (necessariamente) construído pelo próprio Capital e nos tornamos incapazes de repensá-los por nós mesmos. Ora, se nosso conceito de ordem é o mesmo que aquele produzido pelo Capital, como podemos pensar a revolução senão também de acordo com a lógica da valorização do que não tem valor? Não é a toa que a inclusão social (valorização dos sem valor) é o projeto político de maior resonância no país.

Utilizando de maneira aproximativa as categorias formais de Alain Badiou, podemos distinguir a clásula a) da cláusula b) em termos da diferença entre o que é novidade e o que é novo. O processo de auto-revolução capitalista é uma fábrica infinita de novidades – seja no campo das mercadorias, seja no campo da representação política. Por outro lado, o que buscamos é o Novo – isso é, um modo de romper com a lógica da novidade. Ora, o que descobrimos, assim, é que uma nova categoria de ordem é justamente o nome positivo da revolução: quando falamos “revolução”, estamos dizendo “outra coisa do que a lógica das novidades no capitalismo”, mas quando dizemos “ordem”, falamos diretamente e afirmativamente de uma nova lógica, e não simplesmente da negação da lógica anterior.

Enquanto nos sentirmos implicados e envergonhados perante as assonâncias ideológicas das ideias de ordem e disciplina hoje, seremos incapazes de pensar o problema paradoxal colocado por Zizek – o único problema que, uma vez engajados com ele, nos permite assumirmos a alcunha de “comunistas’.

Retornando uma última vez ao nosso exemplo, o campo da arte, citemos os parágrafos iniciais do Manifesto do Afirmacionismo, de Alain Badiou. Tendo em mente o problema comunista de repensar a ordem como verdadeiro nome da revolução, podemos acompanhar o filósofo na luta por um novo horizonte para a arte:

“Nosso poder de resistência e invenção necessita que renunciemos nosso deleite nas margens, na obliqüidade, na desconstrução infinita, no fragmento, na exposição trêmula da mortalidade, da finitude, e o corpo. Pelo bem do pobre século que está se abrindo, nós precisamos, e portanto, iremos, declarar a existência daquilo que não mais existe na arte: a construção monumental, o projeto, a força criativa dos fracos, a destruição dos poderes vigentes.

Nós deveríamos nos opor a todos aqueles que só querem o fim, o grupo dos últimos homens, queimados e parasíticos. O fim da arte, da metafísica, da representação, da imitação, da transcendência, da obra, do espírito: parem! Declaremos agora o Fim de todos os fins e o começo possível de tudo o que é, de tudo o que foi e virá a ser.

Contra seu presente declínio em direção à multiplicidade inconsistente e uma energia que é imoral, sem controle, e – que se tiver sucesso – é fundamentalmente não-humana, a vocação da arte, em todas as suas formas, é reafirmar a afirmação.

Declaremos novamente, em nome da humanidade, os direitos artísticos do verdadeiro não-humano. Aceitemos novamente ser transfixados por uma verdade (ou uma beleza: é a mesma coisa), ao invés de calcular nos mínimos centavos os menores modos de nossa expressão.” (Manifesto do Afirmacionismo)

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