Nota #6 [13/08/2012]

Depois de viver a aventura intelectual de ter de ensinar sem explicar, Joseph Jacotot reformulou sua perspectiva sobre a pedagogia e sobre como a intelectualidade interfere na estrutura das relações sociais. Jacotot concluiu que a explicação é o mito da pedagogia, que hierarquiza a sociedade intelectualmente e se fundamenta na assunção da incapacidade do aluno de aprender com sua própria inteligência, sendo necessária a inteligência mediadora do sábio mestre explicador. O autor afirma que essa subordinação da inteligência do aluno à do mestre é uma atividade embrutecedora, que reproduz a desigualdade numa eterna promessa de igualdade futura.

Jacotot opõe o princípio do embrutecimento ao princípio da emancipação. Emancipador é o mestre que, ao retirar sua inteligência do círculo de aprendizado, do qual o aluno pode sair sozinho, deixa a inteligência do aluno entregue à inteligência do livro, a coisa comum a ambos, o laço intelectual igualitário entre mestre e aluno, limitando-se a função de verificação da igualdade das inteligências. Assim, são dissociadas as funções do mestre e a do sábio; sendo a presença do mestre necessária apenas quando a vontade do aluno não é suficientemente forte para colocá-lo e mantê-lo em seu caminho.

Essa experiência pedagógica abre uma ruptura com a lógica das pedagogias, pois não tem como objetivo transmitir os conhecimentos do mestre ao aluno, mas verificar a igualdade entre todas as inteligências. O método é, puramente, o do aluno. Não se busca nele a via rápida, mas a via da liberdade. Isso significa confiar na capacidade intelectual de cada ser humano. Jacotot conclui que, uma vez que não era o saber do mestre que ensinava o aluno, não era necessário ao mestre ser sábio, podendo ser um mestre ignorante: nada impediria um indivíduo de ensinar o que ignorava, pois a função do mestre é garantir a vontade de aprender e verificar a igualdade entre duas inteligências, não transmitir um conhecimento. Sendo assim, Jacotot conclui que “o ato de aprender podia ser reproduzido segundo quatro determinações diversamente combinadas: por um mestre emancipador ou por um mestre embrutecedor; por um mestre sábio ou por um mestre ignorante.” (p.33).

Mestre emancipador é aquele que força o aluno a usar sua própria inteligência. “Para emancipar um ignorante, é preciso e suficiente que sejamos, nós mesmos, emancipados; isso é, conscientes do verdadeiro poder do espírito humano. O ignorante aprenderá sozinho inclusive o que o mestre ignora, se o mestre acredita que ele o pode, e o obriga a atualizar sua capacidade” (p.34). Esse é o círculo da potência, que para começar seu processo de emancipação deve ser começado. No entanto, o sábio questiona sua capacidade de ensinar tão bem aquilo que sabe quanto o que ignora, enquanto o ignorante não se acredita capaz de aprender por si mesmo e ainda menos de instruir um outro ignorante: os excluídos do mundo da inteligência subscrevem, eles próprios, o veredicto de sua exclusão.

O método de aprender que Jacotot propõe é o mais antigo e comum de todos e por isso chama-se Ensino Universal. Não há indivíduo que não tenha aprendido alguma coisa por si mesmo e sem mestre explicador, no entanto, ninguém havia pensado em empregar esse método para instruir o próximo: “jamais ocorreu a alguém dizer ao outro: aprendi muitas coisas sem explicações e creio que, como eu, também o podeis” (p.35).

Esse método implica uma revolução intelectual que a ordem das coisas não está disposta a reconhecer: através desse método, cada um aprende e descobre a medida de sua capacidade. Isso significa que o problema que se apresenta não é a instrução do povo, mas sua emancipação. “Instruem-se os recrutas que se engajam sob sua bandeira, os subalternos que devem poder compreender as ordens, o povo que se quer governar” (p.37). O objetivo emancipatório de Jacotot era que “todo homem do povo pudesse conceber sua dignidade de homem, medir a dimensão de sua capacidade intelectual e decidir quanto a seu uso.” (p.37). A questão sobre como e o quê o povo aprenderá diz respeito aos que querem instruir o povo e parece a Jacotot uma forma de embrutecimento. “Quem ensina sem emancipar, embrutece. E quem emancipa não deve se preocupar com aquilo que o emancipado deve aprender. Ele aprenderá o que quiser, nada, talvez.” (p.37). Bastava, portanto, anunciar ao povo que eles podiam tudo o que pode um homem.

Se de fato esse método é válido, por que então é necessário que ele seja ensinado ao povo? Não seria mais interessante deixar que o homem do povo descobrisse sozinho que é igual a todos os homens? O problema da emancipação, conforme apresentado por Jacotot, me parece uma questão de autoconfiança. Não deveria o homem do povo desenvolver sozinho sua confiança em sua própria capacidade de aprender. Ou melhor, não é isso que faz o homem do povo todos os dias? Uma vez que não lhe é oferecido mestre explicador para nada, tudo que o homem do povo aprende é por conta própria, portanto ensinar o Ensino Universal seria redundante e de certa forma excluiria a própria ideia da emancipação. Será possível emancipar alguém que não a nós mesmos? Uma vez emancipado, um mestre deveria concentrar-se não em reafirmar a capacidade de cada um de seus alunos com palavras, mas em demonstrá-la forçando que o aluno use sua própria inteligência em busca de sua autorrealização.

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