NOTA #2 (13/09/2019) PR

Enfim a célula do PR retornou para onde desde já parecia estar. Com ela, podemos iniciar o projeto de recuperar e organizar (um pouco melhor) os materiais já produzidos pelo Círculo ao longo dos seus quase 7 anos. Como primeiro passo, vale destacar do esforço de recuperar os áudios das reuniões sempre abertas e gravadas nos mais diversos lugares do Brasil (RJ, SP, MT, PR, RS, Virtual, North America). Inauguramos bem, parece-me.
De outro lado da cena, mas ainda do ponto de vista do PR, as reuniões estão sendo relativamente proveitosas na medida em que as discussões envolvendo Carl Schmitt parecem colocar nos trilhos um dilema que esteve entre nós sobre o pensamento conversador e sua potência discursiva. No caso da parcial aceitação de Schmitt entre aqueles da esquerda, parece que foi nada mais que Chantal Mouffe a realizadora dessa promoção. O esforço se deu ao longo dos anos finais de 1990 em uma tentativa de aproximar o pensamento do alemão e de transformá-lo em weapon para o combate tanto dos autoritarismos quanto dos liberalismos. No entanto, muita coisa aconteceu de lá para cá, e pudemos avaliar, com um pouco de dor no coração, que Schmitt foi mais forte que Mouffe. Quando se tenta dragar o pensamento conservador para o campo progressista, parece que o movimento de incorporação transforma o fagocitador no fagocitante – apenas lembremos das cenas finais do Matrix I quando o Agente Smith (ou Schmitt?) mergulha para dentro do corpo do Senhor Anderson (quase-Neo). O que vimos ali? Uma espécie de ruptura por continuidade, um modo de inauguração temporal de uma forma de vida e de subjetivação que eleva a capacidade de agir de alguém transformando-o em O Escolhido (para o lado dos “humanos”), e, ao mesmo tempo, o outro alguém é também transformado no Escolhido (para as máquinas). O que seria isso senão a própria exposição da gramática da Revolução Conservadora?

NOTA #1 (27/09/2019) Diante do debate relativo a obra de Schmidt “Nomos da Terra”, me chamou a atenção no relato dos colegas as possíveis reverberações dessa teoria no contexto das relações internacionais e na atual “disjuntura” política. A aposta de uma dinâmica adversarial ou antagonista que está no núcleo da concepção ôntica do político do autor alemão está presente nos modelos de dinâmica social de autores diversos como Ranciére, Mouffe, Agamben e até Mbembe. Minha reticência quanto tal atualização heterodoxa, sem (necessariamente,o que é controverso) os resquícios fascistas do pensamento de Schmidt, centra-se justamente no realismo político anti-cosmopolita num contexto geopolítico que tem-se como projeto de extrema direita (e também de uma fração da esquerda) o retorno a nacionalismos e da pauta da soberania nacional como defesa de uma agenda político econômica contra o que vem se convencionando chamar pós-democracia. Revisitar as discrepâncias entre um projeto realista dessa natureza e de um projeto normativo que remonta as intervenções kantianas e seus seguidores no debate da teoria social e do direito internacional é um projeto fundamental para se pensar os limites de cada posição, sobretudo em suas recuperações contemporâneas, bem como os potenciais para se pensar a sobreviências da democracia liberal ou o futuro de uma democracia mais socialista.

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