Nota #2 17/09/2013

1. Ao gesto platônico proposto por Badiou como a tarefa da filosofia contemporânea não são estranhas as noções de “atividade”, “decisão”, “escolha” (ou como quer que se queira chamar esse poder começar desde si e sem ser meramente determinado por outro(s) ou Outro). Por exemplo: “devemos assumir o múltiplo e preferir marcar os limites radicais do que a linguagem pode constituir.” (Manifesto pela filosofia, p. 63, itálico do original). Suposto que a tradução faz justiça ao original, temos aí claramente propostos um imperativo (“devemos”), que rege uma atitude (“assumir”) e um desejo (“preferir”). Todavia, podemos tomar esse imperativo como carente de fundamento ou podemos nos perguntar sobre o que ele se funda?

Se considerarmos como fundamento de tal “imperativo” (para esse termo, cf. ibid. p. 43) o diagnóstico que Badiou faz da filosofia contemporânea, parece que há, sim, uma fundamentação clara e explícita do referido gesto. Com efeito, estaríamos em meio ao fim da “era dos poetas”, na qual a filosofia esteve (sobretudo) suturada à arte; além disso, as “filosofias” que se seguiram a Hegel  perderam ou jamais tiveram a capacidade de pensar os quatro procedimentos genéricos em sua compossibilidade, por estarem sempre suturados a pelos menos um deles (a filosofia analítica, suturada à ciência; o marxismo, suturado à política e, através desta, à ciência); mais, ainda: a situação de uma sutura da filosofia, sobretudo no que diz respeito às categorias de ser e verdade (mas também as de sujeito e objeto), à poesia, fez surgir conjuntamente uma sofística contemporânea, com seu relativismo e seu ceticismo com relação à possibilidade de uma Verdade (universal), bem como um discurso sobre o “fim da filosofia”, o “fim da metafísica”, o “fim das metanarrativas”.

Não basta, contudo, esse diagnóstico negativo, e isso por duas razões de desigual importância: 1) a primeira delas, menos importante, é a de que o diagnóstico do fim da era dos poetas, tal como exposto no parágrafo anterior, requer ele mesmo uma fundamentação; 2) a segunda, e mais importante, é a de que o referido imperativo “não passaria de um voluntarismo arbitrário se aquilo que lhe funda o sentido não se achasse tendo o estatuto de eventos cruciais sobrevindos, embora segundo nomeações ainda suspensas, ou precárias, ao registro de cada uma das quatro condições” (ibid., p. 40). O que se quer, com esta segunda razão, é dizer que o direito de levantar a possibilidade de uma espécie de “refundação” da filosofia enquanto tal necessita de um fundamento in re – por mais que o estatuto mesmo da “coisa” em causa seja fugidio. Diga-se de passagem que é naquilo em que o imperativo funda seu sentido que o diagnóstico acerca do fim da era dos poetas encontra seu fundamento – donde a subordinação da importância deste diagnóstico com relação à questão sobre o fundamento daquele imperativo.

Ora, Badiou pretende que a condição expressa em 2) acima é, sim, preenchida pelos seguintes eventos:  “o genérico de Paul Cohen [no caso da ciência], a teoria do amor de Lacan [no caso do amor], a política fiel a Maio de 68 e à Polônia [no caso da política], o apelo poético de Celan ao ultra-poema [no caso da poesia]” (ibid., p. 50). Ademais, se concordarmos com Badiou  que “o mais profundo sentido de sua obra poética [a de Celan] é o de nos livrar desse fetichismo [o do poema], de liberar o poema de seus parasitas especulativos” (ibid., p. 50), então o diagnóstico do “fim da era dos poetas” também encontra seu fundamento. Cabe à filosofia constituir(-se) então para todos, isto é, universalmente (com)o “abrigo comum” do “ter-tido lugar desses eventos”. (Noto apenas de passagem que o que foi (muito bem) observado Mais-Um na última reunião, a saber, a relação entre filosofia e tempo em Badiou aparece claramente nessa formulação; a partir desta, eu arriscaria o seguinte esboço daquela relação: a filosofia é a tarefa (constantemente) presente de criar um ter-lugar-futuro (um ter sentido) de (mais de) um passado (fundamento(s)-evento(s)), é, rigorosamente, a destinação nomeadora (a Verdade) das verdades sem-nome que fundam a Verdade. Nesse processo, viria à luz uma época do pensamento.)

Suposto que esse quadro faz juz, ainda que em esboço, ao diagnóstico e à tarefa segundo os quais Badiou compreende a filosofia contemporânea, podemos colocar algumas questões. São questões que, me parece, podem ser pensadas com o auxílio da interpretação que Badiou faz de São Paulo. Limito-me a elaborá-las.

Trata-se de pensar o estatuto do evento/acontecimento em sua relação com a filosofia. Por um lado, parece que o evento, se não é algo discernível com os nomes de um saber e uma situação constituídos, ele parece poder ser “em si mesmo” localizável como algo externo à filosofia. Eles aconteceram; cabe à filosofia reconhecê-los e pensá-los. Ou seja: não se parece demandar da filosofia aqui criação e produção, mas um olhar atento ao que está fora de seu próprio âmbito e é, ao mesmo tempo, sua condição. Trechos como o que se segue parecem ir nessa direção: “a gente não se subtrai tão facilmente ao imperativo das condições, mesmo desprezado, pois o que o funda teve lugar, aconteceu.” (ibid., p. 51) Nesse sentido, não é difícil ficar tentado a pensar a verdade da filosofia, se é que se pode falar em uma tal verdade, ou, ao menos, pensar a Verdade que a filosofia deve formular como algo que corresponda a essas condições, pensadas assim como “objetos” da filosofia. Teríamos, portanto, operando em uma tal interpretação o conceito de verdade como correspondência de um enunciado feito pelo sujeito a um objeto que é externo a esse enunciado e lhe serve de critério de verificação.

Ora, esse é um conceito de verdade que Badiou  expressamente rejeita (acompanhando nisso, por sinal, sobretudo as filosofias que se suturam pela poesia). A verdade é da ordem da produção e da produção de um múltiplo, e de um múltiplo não inerente a uma situação, mas que a suplementa. A correspondência parece supor não a criação/produção, mas a descoberta e o reconhecimento; não o múltiplo, mas um objeto em algum sentido uno; não, sobretudo, algo “posto fora” da situação, mas algo que se encontra nesta.

Todavia, por outro lado, há que se tomar cuidado, me parece, para que o evento não seja pensado em algum sentido como algo inteiramente “produzido” pela filosofia, no sentido de que ele nos deixa completamente sem nenhuma indicação sobre como elaborá-lo, investigar suas consequências, enfim, ser fiel a ele – e com isso a subjetividade que a ele se liga deveria criar a partir do “nada” a lei que a liga ao evento. Trata-se, me parece, de não perder de vista que se trata desses eventos mencionados mais acima, e não outros, e de pensar a compossibilidade deles. Nesse  sentido, algo esses eventos tem que, se assim posso formular, “dizer de si”.

Mas poderíamos arriscar um passo a mais: talvez há que se pensar em uma compreensão que escape aos polos que mais ou menos guiaram a interpretação até aqui e que ao mesmo tempo incorpore em si (suprassuma…) esses mesmos polos. Até onde posso ver, seria vizinho ao que Heidegger compreende por “possibilidade” quando diz que o existir (Dasein) é possibilidade: não se trata nem do arbítrio de uma escolha “espontânea”, nem de determinação externa, nem de reconhecimento do que vem “de fora”, nem de criação/produção de si – mas sim de uma estranha coincidência, de uma indiscernibilidade entre essas duas coisas, em que o existir não “toma” uma decisão, mas é a decisão (que (o) toma e (o) constitui enquanto tal).

Em todo caso, essa decisão leva a um ou outro caminho – é da ordem, pois, de um sujeito finito, como o que Badiou quer pensar. Ora, se essa decisão é justamente uma que não simplesmente parte de coordenadas dadas, mas revoluciona o horizonte mesmo de coordenadas; se um tal ato de revolução pode ser chamado de ato ético por excelência no sentido de Zizek, então não teríamos que pensar uma ética de Badiou a desepeito dele mesmo? Por outro lado, é o mesmo Zizek quem parece advogar por uma (quase) indiscernibilidade ou, antes, uma re(con)dução desse ato ético à política na conclusão de Menos que nada

2. Se a matemática é a ontologia; se só o matema nos guia (ibid., p. 55); se a categoria de multiplicidade genérica foi primeiramente produzida no campo da matemática (ibid., p. 64) e é central para a formulação de um conceito de verdade de Badiou; se, por fim, é forjando um conceito de Verdade que uma filosofia pode pensar a compossibilidade das quatros condições (São Paulo, a invenção do universalismo, p. 126), então por que o pensamento de Badiou não seria, no fundo, suturado a uma de suas condições – a saber, via matemática, à ciência?

3. Já que se falou em gesto platônico aqui e já que se mencionou a República na última reunião, não posso me furtar a uma lembrança: na casa do velho Céfalo (o cabeça da discussão), os adultos (como Sócrates e Trasímaco) e jovens (como Polemarco, Glauco e Adimanto) que, reunidos, para saber que vida é mais feliz, a do justo ou a do injusto, acabaram por reinventar a política em meio a uma busca pela (natureza da) justiça, estiveram por todo o tempo sentados em círculo (Platão, República, I, 328c4).

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