NOTA #2 [18/03/2020] (RJ I)

Impostores e Inforgs contra o Sujeito cogitante

Começo minha nota pedindo desculpas por não seguir a sugestão de revisitar notas antigas, mas é que durante a reunião, algumas coisas discutidas me levaram a pensar e eu comecei a fazer anotações que, quando percebi, já pareciam ter cumprido com a função de ‘produzir uma nota’. Seguem, portanto, as anotações.
Existe modernamente algum fator que pareça acentuar o fenômeno do impostor? Aquela sensação de não se é bom o suficiente apesar das credenciais oficiais e do reconhecimento dos pares de suas capacidades?Crise do capital cultural — há uma questão econômica que cria um impedimento na capacidade individual de bancar conhecimentos? de afirmar confiantemente que se sabe o suficiente? os sujeitos, mesmo em recortes identitários privilegiados parecem incapazes de se afirmar como sujeitos de conhecimento, como os cartesianos egos cogitantes e senhores de suas próprias ideias.
A complexidade crescente do meio social e, mais especificamente, da dimensão informacional-cognitiva parece estar por trás desse problema em algum grau.Cada vez mais parece faltar a organização do conhecimetno necessária para produzir respostas com legitimidade. Talvez ao mesmo tempo, haja algo da ordem das subjetividades individuais, que parecem sentir uma confusão diante desses excessos informacionais. Um cansaço depressivo generalizado parece se disseminar e solapar a autoconfiança desses sujeitos. Em tempo de crise aguda e crônica da figura do sujeito, talvez uma nova forma de subjetividade seja necessária. Enquanto for necessário posar como senhor autônomo da verdade para se sentir um sujeito de conhecimento legítimo, talvez estejamos necessariamente fadados a nos sentirmos impostores… O filósofo que fez sua carreira trabalhando o conceito de informação, Luciano Floridi, afirma que vivemos a quarta revolução (após a copernicana, darwiniana e freudiana). Como resultado da revolução da informação, podemos enfim perceber que somos inforgs (organismos informacionais) que apenas podem funcionar acoplados a um ambiente (infosfera) onde coabitam inumeros outros agentes informacionais, naturais e artificiais. Enquanto eu quiser ter legitimidade cognitiva como sujeito independente da esfera informacional, estaria eu fadado a me sentir um impostor?
Seria então o sujeito um amálgama de contribuições heterogêneas?
Em determinado momento, uma crítica à tecnocracia se colocou contra a ciência, concebida como uma entidade mais ou menos homogênea e hegemônica que deslegitimava o conhecimento popular. Hoje, em tempos de novos obscurantismos, a valorização do conhecimento coletivo e leigo deve tomar o cuidado de não se pautar em uma minimização do conhecimento sistemático/acadêmico/científico. Parece necessário simultaneamente valorizar o estudo e a pesquisa, os modos sistemáticos de produção de conhecimento legítimo, e os modos pragmáticos, não hegemônicos de conhecimento. Talvez mesmo, em última instância, a questão passe por valorizar as trocas livres e abertas de conhecimento, com modos de produzir sistematizações novas, garantindo uma “arejada” e um clima democrático de trocas entre iguais. A plataforma de igualdade precisa estar sempre sendo produzida de novo e de novo…
Isso me leva, como sempre, de volta à questão da organização… O sujeito que conhece é uma organização e integra uma organização. O conhecimento individual só pode se manifestar como resultado mediado pela agência estrutural-organizacional que acaba por colocá-lo à disposição desse sujeito (não-autônomo, mas interdependente). Talvez o fim dos impostores só seja possível como uma resposta organizacional que gere a plataforma de confiança para os indivíduos que dela participam. Talvez não…

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