NOTA #2 [18/04/2017] (RJ I)

Uma questão que ficou comigo:

Se o poder de fato opera cinicamente em nossos tempos, admitindo de saída o modo como se estrutura e atua (e, de preferência, rindo dessa atuação, não se levando muito a sério), então resta pouco ou nada a fazer quanto ao “esclarecimento das massas”. Se a denúncia se tornou indiferente, pois seu conteúdo já é assumido antecipadamente pelo denunciado como forma de anular sua eficácia, então devemos suspendê-la. Deixar o poder funcionar à revelia de nosso patrocínio involuntário.

Contudo, seriam realmente estas as implicações práticas que devemos extrair da assunção dessa tese, a da ideologia cínica, no tocante ao esclarecimento? Deveríamos nos esquivar em absoluto da tentativa (ou tentação) de ironizar, de expor, de condenar e de explicar o que já está revelado desde o início? Ou justamente o contrário: devemos mais do que nunca ser irônicos, rir do poder, mas apenas como forma de reduzir o impacto negativo da condição a que nos submete? Se, contudo, no primeiro caso, a total interrupção da denúncia parecer um exagero, será por uma falha da teoria (em casos concretos a denúncia ainda pode possuir validade, ainda pode modificar condutas) ou por uma falha nossa para aceitar a verdade da teoria – uma lacuna entre o que “professamos” (a ideologia cínica e seu corolário, essa espécie de saber total da sociedade) e aquilo que nos determina a ação?

Finalmente: que tipo de postura seria a mais coerente adotar se de fato assumimos que o funcionamento do poder se coloca sem máscaras, que tudo já está posto às claras, que todos já sabem (e que esse saber não se traduz em ação contrária efetiva)? Deixar para ingênuos e crédulos a tarefa inglória de multiplicar os memes, os “textões”, as propagandas, os debates pretensamente esclarecedores ou qualquer outra forma de denúncia enquanto assistimos à distância o desdobrar dos fatos (de quando em quando denunciando a leviandade do denuncismo alheio). Ou engrossar cinicamente o coro dos descontentes? (sei muito bem que todos já estão conscientes do que vou dizer, mas ainda assim o digo como se não estivessem).

Então, assumindo a tese da ideologia cínica e sendo ela verdadeira, seriam estas as opções? O silêncio dos (duplamente) esclarecidos ou a tagarelice?

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