NOTA #2 [18/08/2015] (RJ I)

389. Ideia, comunismo, erro, ficção[1]

 

“Se você age como se fosse verdade,

não importa se você sabe que é mentira.”

“…a História sempre nos dá uma nova oportunidade de errar.”

(Rafael Oliveira, Secretário-Geral do CEII)[1]

“Tudo desde sempre.

Nunca outra coisa. Nunca ter tentado.

Nunca ter errado. Não importa. Tentar outra vez.

Errar outra vez. Errar melhor.”

(Samuel Beckett, Pioravante Marche)[2]

 

O trabalho procura pensar a relação que Badiou estabelece entre “comunismo” e “Ideia”. “Ideia” é uma operação que formaliza o encontro entre universal e singular, eterno e temporal, infinito e finito. “Comunismo” é o nome dessa operação na política (emancipatória) concebida como (processo de) verdade. Contudo, o comunismo não seria o télos necessário da História, preconizado em certas interpretações marxistas. Pois a (criação de) verdade(s) depende da dupla contingência do evento que a propicia e da militância que, declarando o evento, trabalha disciplinadamente nas consequências deste. E se “trabalhar” significa aqui propor/viver uma vida estruturada pela Ideia e diversa do “capital-parlamentarismo”, pergunta-se: que vida (coletiva) propõe o comunismo (da Ideia)? Assim, cabe perguntar: 1) O que é Ideia? Que operação acontece aí? 2) O que é Ideia de comunismo? Que peculiaridade essa operação tem na política? 3) O que é comunismo da Ideia? Que significa viver (coletivamente) por uma Ideia?

 

(…) o que, para nós, significa perguntar: o que a Ideia de comunismo tem a ver com o comunismo da Ideia? A resposta direta é: a Ideia de comunismo é (também) a Ideia de um comunismo da Ideia. Vejamos, em linhas gerais, o que isso pode significar.

 

Badiou denomina a convicção que domina o mundo contemporâneo de “materialismo democrático”; ela poderia ser resumida no encunciado: “Não há mais que corpos e linguagens”. A essa máxima, ele opõe a que sintetizaria seu pensamento, que ele denomina “dialética materialista”: “Não há mais que corpos e linguagens, senão que há verdades.” O estranho “senão que” (sino qu’) que introduz o suplemento que promove a “transfiguração” do materialismo democrático em dialética materialista faz eco à estranheza mesma denotada pelo suplemento – sobretudo da perspectiva da convicção contemporânea. Ao falar da Ideia (de comunismo), vimos, posto que sumariamente, o que tal suplemento quer dizer.

 

Ora, se a operação da Ideia está ligada às verdades e se materialismo democrático não há verdades, isso quer dizer que para este não há Ideias. É por isso que Badiou pode dizer que a máxima dessa convicção (e, assim, da contemporaneidade, isto é, do capital-parlamentarismo) é: “Viva sem Ideia”. A isso, a dialética materialista oporia a compreensão de que o viver em sentido próprio, e não meramente sobreviver enquanto animal humano, é viver por uma Ideia. Nesse sentido, se o comunismo pensa uma vida outra que a do capital-parlamentarismo, o que dá a alteridade desse outro é precisamente a operação da Ideia.

 

Todavia, como há verdade na arte, na ciência e no amor, aí também há Ideias. A diferença é, entre outras coisas, a de que a Ideia de comunismo, enquanto nome da política como processo de verdade, não só é universal no sentido de que é para todos, mas também no de que ela é (potencialmente) o pensamento de todos – de que é próprio a esse procedimento que todos sejam, em potência ao menos, militantes da verdade que está em questão aí. Não é isso que ocorre, e.g., na ciência: um teorema matemático é virtualmente destinado a todos, mas não é preciso que todos o confirmem – bastaria um outro matemático (Badiou, 2005, p. 142). É isso que significa, em última instância, dizer que a política (e propriamente só ela) diz respeito ao coletivo – que ela é, em verdade, construção do coletivo, pelo coletivo e para o coletivo. Fica em aberto se e de que maneira uma tal construção poderia se relacionar com os demais processos de verdade – se, e.g., ela poderia contribuir em algum sentido para o “acesso” à verdade dos demais processos.

 

Outra dificuldade se refere a uma nuance (ou mesmo uma ambiguidade) que parece haver no termo “Ideia” quando se fala aqui de “Ideia de comunismo” e de “Viver por uma Ideia”. Essa nuance é assinalada por Badiou quando ele nota que a Ideia tem um “valor operatório” e uma “forma imperativa” e que viver “em Sujeito”[3] pode querer dizer “como se fosse” (como na máxima “Viver em Imortal”, de Aristóteles, e viver “no” corpo-sujeito de uma verdade (2012, p.131, n.1; p.136, n.6). Se, quando explica a operação da Ideia de comunismo, ele parece insistir no seu caráter de “como se”, de ficção, quando ele fala da vida segundo a Ideia a operação aí em jogo parece antes o aparecimento mesmo da exceção no mundo do que um “como se”:

 

Se concordamos em chamar “Ideia” àquilo que, a cada vez, se manifesta no mundo – dispõe o ser-aí de um corpo – e constitui a exceção a sua lógica transcendental, diremos, seguindo a linha do platonismo, que experimentar no presente a eternidade que autoriza a criação desse presente é experimetar a Ideia. (2008, p. 560)

 

Todavia, a ambiguidade talvez possa ser aqui uma ambivalência: e se o “mesmo” aqui não for senão uma ficção – sem que isso queira dizer que ele seja “menos” que uma “verdade”? Nesse caso, teríamos uma ocasião para repensar o papel positivo da ficção, da fantasia e de suas “mentiras” naquilo que seria a nossa vida mais própria, isto é, a nossa vida na sua relação com aquilo que é eterno e universal. Aqui, uma boa companhia talvez seja mais uma vez a de Platão, na medida em que ele não apenas deu cidadania filosófica ao universal e ao eterno como fundamento de uma forma de vida mais própria; na medida em que ele não só talvez tenha sido o primeiro a pensar o melhor lugar desta vida como um comunismo (conquanto restrito) – mas também, e quiçá sobretudo, na medida em que ele escolheu fazer tudo isso na forma da ficção.

 

[1] Epígrafes, resumo, trecho de trabalho do Niep-Marx 2015



[1]              A primeira máxima se encontra em “MATERIALISMOHISTÓRICOOBJETIVO”, postagem no facebook de 08.03.15 a respeito da sentença “a prática como critério de verdade”. p. Única Cf. https://www.facebook.com/compay.oliveira/posts/846673562036972?pnref=story. A segunda se encontra em: https://www.facebook.com/groups/ideiaeideologia/permalink/485573018264014/.

[2]     Beckett, 1988. (adaptado) O “Tudo desde sempre” é a Ideia de Bem, em Platão, ou a Verdade, que Badiou põe no lugar da Ideia de Bem na sua transcriação da República de Platão (Badiou, 2014) – isto é, aquilo em direção a que a gente sempre erra.

[3]     A essa altura, dada a relação entre sujeito e Ideia, talvez convenha assinalar que a tradução do eidos platônico por “forma” não só não é casual, mas pode vir bastante a calhar. Pois o pensamento de e sobre um sujeito talvez só possa ser formal, ao menos na medida em que o traço deste é a singularidade. A coisa começa a decair quando se pensa em formular conteúdos substantivos a partir daí. Temos então uma curiosa (e perversa) reinversão hegeliana: é o sujeito (forma) que se torna, “decai em” substância (conteúdo). Por sinal, talvez seja essa a perversidade capitalista típica: os (possíveis) sujeitos tendem a ser reduzidos a mera substância, “coisa” reduzida a suas propriedades identificáveis e, em sua diferença, trocáveis, porque no fundo constituídas de uma mesma substância: “valor”, nos termos de Marx e da economia política. Nesse sentido, ser/ter (apenas) valor seria justamente a degradação mais baixa… Note-se que a perversidade está no “apenas”, e não propriamente no valor; na “decadência” que é o domínio exclusivo da substância, e não no ser substância enquanto tal. O valor ou, ao menos, a substância são fundamentais para o sujeito, mas o decisivo é não reduzir este àqueles – nem que o sujeito seja essa diferença mínima, propriamente de nada, entre a substância e ela mesma ou, mais precisamente, entre a substância e o (seu) ser. Esse nada, ou menos que nada, é que decide tudo aí. O segredo do “mais” do mais-valor talvez esteja justamente aqui: esse mais, que não é nada demais ou de outro (é e continua sendo valor), esse mais que, com o tempo, surge como que “do nada”, é o signo do sujeito.). Sobre a relação entre sujeito e singularidade, cf. anexo 1.

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