Nota #2 [21/03/2013]

“(…) Em A miséria da filosofia, Marx escreveu que a ideologia burguesa gosta de historicizar: todas as formas sociais, religiosas e culturais são históricas, contingentes e relativas; todas, exceto a dela. Houve história no passado, mas agora não há mais história nenhuma (…)” (ZIZEK, 2009, p. 30).

 

A respeito do fetichismo da mercadoria em Marx, com Zizek temos que mais do que a “substituição de homens por coisas”, observa-se, como elemento estrutural da relação social mediada pela forma-mercadoria, “certo desconhecimento da relação entre uma rede estruturada e um de seus elementos” – se bem entendi. O ponto é que este “desconhecimento”, me parece, não se refere à noção do marxismo tradicional, ou seja, não se trata de “algo que se perde por força da alienação imanente às relações sociais capitalistas”, por assim dizer.

O autor se refere à Marx e pondera que isto [certo desconhecimento] é um efeito possível seja em relações “entre coisas” ou “entre homens” – me parece, então, que não é o “fetiche da mercadoria” o responsável histórico por produzir relações sociais estruturadas numa forma essencial, básica, mínima e necessária de “desconhecimento”: em verdade, como explicita Zizek, a própria constituição do campo da identidade exige tal grau de alienação [que se põe numa relação em que os campos dispostos se afirmam como tais, se realizam como tais, apenas quando se mediam, por assim dizer; ou seja, quando servem-se de suporte externo um ao outro para formarem, assim, sua auto identidade – que jamais existiu anteriormente a tal procedimento].

O que, me parece, ser uma formulação interessante da questão da aparência, pois não se trata de uma aparência que aliena/ oculta/ tergiversa sobre a essência.

Desse modo é que, sobretudo, nas sociedades capitalistas, num sentido precisamente formal, é que, me parece, pela primeira vez na história é que os homens associam-se e formam uma sociabilidade desfetichizada. Se lembramos do Manifesto Comunista, vemos, por exemplo, que:

“(…) Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cotejo de concepções e de ideais secularmente veneradas; as relações que as substituem tornam-se antiquadas (…) os homens são obrigados finalmente a encarar sem ilusões a sua posição social e as suas relações com outros homens (…)” [2011, p.43].

Dizer então que “por trás das mercadorias há trabalho” é pouco, se exposta dessa forma a questão do fetiche. Em verdade, é realmente pouco crível realmente que algum de nós acredite que o não é o trabalho que está por trás das mercadorias, penso. Então, se assim o for, qual é a qualidade do “ocultamento ideológico” da sociedade capitalista? Qual é a forma ideológica própria à sociabilidade burguesa? Se sabemos todos que ela depende da liberdade do trabalho, e não seu inverso, para absorvê-lo à dinâmica da produção de valor qual é o “desvio ideológico” das relações sociais mediadas pelo trabalho? Pois, se entendi, é a própria condição material, em ato, factual, do trabalho livre na sociedade capitalista que faz com que outras categorias que, como ele gozem de liberdade efetiva e concreta, que subverte a universalidade da liberdade na sociedade capitalista – de certo modo, então, pode-se dizer, acredito, que a “verdade” não é que o trabalho está preso ao capital, mas que sua liberdade é pressuposto das relações sociais capitalistas.

Zizek sugere então que o ocultamento ideológico é posto a partir do desvelamento da ordem das coisas, por assim dizer. Ou seja, admitindo, é claro, que a sociedade burguesa constitui-se a partir de formas de “dominação” tem-se que esta não é, pelas próprias qualidades destas “formas de opressão”, “ocultada”, mas fundamentalmente “revelada”. Isto é, admitindo que a dominação existe, é claro, o fato é que a dominação existe como dominação ao ponto de ser questionada enquanto tal. Logo, o juízo básico sobre o problema da “ideologia” e da “alienação social”  exige coordenadas distintas.

“(…) Deparamos, pois, com o paradoxo de um ser que só consegue reproduzir-se na medida em que seja desconhecido e desconsiderado: no momento em que o vemos ‘como ele realmente é’, esse ser se dissolve no nada (…)” [ZIZEK, p.312]

Esse “nada”, talvez, seja o vazio ideológico ou a realidade pós-ideológica em que a alienação, as formas de dominação social, se apresentam e enunciam tal qual são: não há o que revelar/ a coisa se mostra como tal e, por isto, o ser perde a necessidade de ser “desmascarado”. Claro, como diz Zizek, exatamente este é o ato ideológico em estado puro: a suposição de que nele, por meio dele, a realidade apresenta-se nua e cruamente – um acesso direto a ela. Neste registro, neste nível, a crítica tradicional à ideologia perde seu sentido, pois a referência básica de sua existência é a necessidade de expô-la até as vísceras. Mas há algo, ainda mais, a ser exposto numa sociedade em que a Autoridade, o Poder, a Ordem etc são explicitamente encaradas, acusadas e atacadas?

Citando Peter Sloterdijk, Zizek passa a discorrer sobre o cinismo como forma de ideologia [p.312]. Temos duas dimensões: [1] a que, através da ironia e do sarcasmo, confronta-se a ideologia dominante, expondo-a ao ridículo e, por fim, evidenciando os interesses egoístas/ particulares que se apresentam como universais – trata-se, portanto, de um procedimento pragmático de denúncia e desvelamento ideológico; [2] a que procura expor no momento da enunciação a própria posição interessada/ particular do enunciado, preservando, assim, sua força uma vez que à tal posição não pode se imputar “falsidade” ou “mentira” – ao contrário, ela é toda honesta por ser é toda sincera.

Caso se admita que a ideologia contemporânea seja o “cinismo cínico”, isto é, aquele cinismo que alcança aquilo que tanto a crítica ideológica tradicional [“essência por trás do ocultamento da aparência”] quanto “cinismo crítico” [“há um interesse particular que não se revela na enunciação que se apresenta como universal e que, portanto, merece ser alvo de constrangimento”] alcançam, ficamos numa encruzilhada: à crítica ideológica não basta nem denunciá-la como “posição particular que se mostra como universal” [isto, a ideologia contemporânea, já faz] e nem ironizá-la ou crer que sua ironização é uma forma de denunciar e corroer suas estruturas [ela, a ideologia contemporânea, se mostra e se estrutura a partir de sua própria ironização].

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