Nota #2 [14/09/2012]

Do primeiro contato formal com a reflexão do filósofo Slavoj Zizek [através de nossa leitura em “Cómo volver a empezar… desde el principio”], o que mais ficou pra mim, como não poderia deixar de ser, foi a introdução ao campo teórico no qual o autor se situa. A distinção da produção zizekiana dá-se no interior de uma tradição, de uma aposta, já iniciada entre uma articulação entre psicanálise e marxismo. Estamos cientes que a operação desta articulação se efetiva sob uma guia, por assim dizer, hegeliana.  No entanto, nesta nota, me parece mais adequado objetivar o que apreendi ao ponto de poder, agora, transmitir.

Wilhelm Reich, pode-se dizer, foi o primeiro a arriscar tal associação. Extraindo da “repressão” freudiana uma simetria possível, me parece, com a “alienação” em Marx. Cujo resultado, invariavelmente, dispunha que a liberação daquele conteúdo mais nuclear [e reprimido] do homem, associável, em algum nível, à sua sexualidade, tencionaria de tal modo com a ordem social ao ponto de levar a supressão da alienação. Isto é, há uma associação quase espontânea entre liberação sexual e emancipação que, de algum modo, resultou numa espécie de politização do privado. Ou seja, a politização das disposições sexuais dos indivíduos, determinada nesta sociedade, levaria estes à por em xeque esta. Com níveis maiores de complexidade e maior sofisticação, o teórico frankfurtiano Theodor Adorno seguiu o mesmo itinerário: a proposta de elevar ao político o privado/ o particular.

Trata-se uma lição que, de modo mais ou menos explícito, subjaz na discursividade da esquerda – mesmo aquela mais tradicional, ortodoxa e dogmática. Não há organização de esquerda hoje que, por exemplo, não se ocupe dos problemas do indivíduo [em sua encarnação mais individualizada] – ou, hoje, não a esquerda possível sem se ocupar de problemas “subjetivos” – algo, concordemos ou não com isto hoje, impensável à luz de outras tradições no interior do marxismo. Claro que opera-se algum malabarismo no sentido de pactuar num mesmo sistema explicativo o problema “indivíduo” e o problema “coletivo” que recorre, num geral, a uma totalidade vazia ou, digamos assim, numa noite onde todos os gatos são pardos.

A psicanálise de Zizek, inspirada em Lacan, parece-me inverter algumas suposições contidas na concepção de mundo da esquerda – e na verdade, também, da direita. Por exemplo, que quão mais “liberado sexualmente” um sujeito for, mais emancipado este está ou potencialmente este estará do ponto de político e/ ou ideocultural. Sem estar familiarizado com Lacan, sabemos que a qualidade da “repressão sexual” no capitalismo contemporâneo não se situa mais numa contenção do desejo ou da satisfação – por assim dizer. Mas, ao contrário, a regulação do desejo, nesta sociedade hoje, faz-se sob a prescrição da satisfação deste. Realizando paradoxalmente o dado de que transgredir torna-se, neste esquema, uma regra/ uma necessidade.

Politicamente, se a hipótese do inconsciente, enquanto operação de ocultamento, estiver correta e se oculto for aquilo que é reprimido/ regulado sob a prescrição normativa de um “eterno satisfazer-se”, como a esquerda pode romper com a ordem? Ou seja, se a ruptura/ transgressão, nesta sociedade, for uma expectativa necessária, qual seria a forma de inserção do comunismo enquanto quebra da ordem existente?

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