Nota #2 [22/10/2013]

O sujeito não é homem

A questão que restou do último encontro diz respeito ao estatuto do sujeito na ontologia. Se por um lado Badiou insiste em pensar “a partir do Ser”, negligenciando qualquer diferença ontológica significativa entre o domínio do que “é” e aquele que se constituiria como o “propriamente humano” – a ponto de recusar, por exemplo, como demasiado antropológico, o Dasein de Heidegger – como compreender que “O processo de uma verdade somente é universal se um reconhecimento subjetivo imediato de sua singularidade o sustenta como um ponto ideal.”? (São Paulo, p. 31) Ele não está atribuindo ao sujeito um papel especial ao designá-lo como a instância capaz de “sustentar” um processo de verdade?

5 ideias sobre “Nota #2 [22/10/2013]

  1. A questão da nota me parece fundamental. Tendo a encaminhá-la da seguinte maneira: sim, não dá para perder toda a referência ao “sujeito” – mas a referência que fica é só a daquele que se determina pela pura referência ao ser e ao acontecimento. Ele é assim maximamente vazio, não tem objeto; ele se limita a “ser” isso: pura relação ao ser, ao acontecimento. Este é, por sinal, o sentido do ser do Dasein, em Heidegger.

  2. Se o ser’ é o que é’…neste sentido esta afirmação parece se aproximar a heigdegger…pois o Dasein é o que ‘está aí’…aí jogado no mundo…então ‘o que é’ seria uma positividade…mas para Badiou..o sujeito não é uma positividade, mas ao contrário algo subtrativo….que aponta para uma ontologia negativa…em vez de ser…é um de-ser…isto, porque a princípio o ser não está aí…mas só se constitui a partir de um acontecimento…e a uma fidelidade em relação a ele…devido a este acontecimento adquirir para ele efeitos de verdade…então a pergunta é…e antes do sujeito advir…o que temos?….o ente?

      • Salve meu caro,

        não sei se entendi bem o seu comentário. Vou tentar formular, na medida possível a partir do que vc disse, como eu vejo a coisa, para ver tentar seguir o nosso papo.

        “O que é” ou “aquilo que é” é uma expressão que se costuma usar, tanto quanto sei, para a noção de ente. Nesse sentido, o termo ente pode ser usado para tudo de que se pode dizer “é”, seja o que for: pedra, alface, cachorro, homem, deus, unicórnio, número, ideia, etc. Tudo que, em algum sentido, “é”, “é” ente.

        Já o ser “é” aquilo que faz com que algo seja um ente (a linguagem é foda, em todos os sentidos, e às vezes é preciso abstrair que estamos usando a cópula (“é”) para definir o que faz nascer essa mesma cópula (o ser). É preciso abstrair ou entrar na dança (de roda, ou melhor, de círculo)). Sendo o que faz com que um item, um x seja um ente, o “ser” significa o fundamento, a essência do ente, mas também a sua existência, o seu “dar-se”. Perguntar-se pelo sentido do ser do ente é, pois, perguntar-se por este dar-se, esse “acontecer”. Uma maneira clássica de perguntar isso (que remonta, se bem me lembro, a Leibniz) é: por que existe (é) o ente e não antes o nada? Não vou comentar em detalhe o “e não antes o nada” – apenas assinalo que nada é (sic) aqui o não-ente e, nesse sentido, pode se identificar com o ser na medida em que este não é nenhum ente, mas o fundamento (o porquê) do ente; e que ele remete aqui, em certa medida, ao ente cuja peculiaridade é justamente perguntar pelo ser: o ente que nós mesmos somos.

        É esse ente que Heidegger chama de Dasein (ser-aí, existir). O que o carateriza é justamente o seu vazio, a sua indeterminação originária, o seu sempre por ser. E porque seu ser sempre está em aberto, ou em questão, e nisso “suspenso no vazio”, que ele é diverso dos demais entes: estes têm seu ser determinado, pronto, fechado ou, no mínimo, não é questão para esses mesmos entes; o ser do ser-aí é sempre por decidir, é ele mesmo decisão. Isso significa que o ser-aí é tão só relação ao ser, o seu próprio e o ser em geral, e é “sujeito a” essa relação que ele vem a se concretizar nessa ou naquela época, pessoa ou mesmo nessa ou naquela conversa singulares. Essa é uma outra maneira de dizer o que é mais próprio ao ser-aí: a singularidade que, repito, é peculiar ao que é “humano”, seja a configuração de ralações a cada vez uma época, uma comunidade, uma pessoa ou uma conversa, por ex. Se pode falar de ser-aí de todas esses “itens” (o ser-aí de uma conversa, de uma época, etc.), na medida em que aí se articula a cada vez o ente que nós somos em sua singularidade.

        É porque “é” esse vazio constitutivo, por essa abertura a cada vez singular ao ser, que o ser-aí difere dos demais entes e se relaciona com o acontecimento do ser. Por essa mesma razão (e por outras, desenvolvidas em uma das notas das últimas semanas), ele me parece poder ser aproximado do sujeito em Badiou; e por ser o único (tanto quanto sei) cujo ser é colocar em questão o ser, ele (nós) tem(os) um lugar privilegiado na ontologia (feita por nós).

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