Nota #2 [23/07/2012]

No último encontro tivemos o trabalho do dia dividido em dois. Primeiro no ocupamos de Badiou e sua conferência que havia sido finalizada no encontro passado e depois fizemos um balanço deste instante inicial do próprio CEII.

Quanto ao primeiro bloco, serviu-me para retomar a problemática da “situação” e “estado da situação” em Badiou. Penso que a “situação” consiste o instante em que temos a representação de elementos contidos em conjuntos. Conjuntos estes infinitos em que estão contidos como elementos/ coisas aqueles elementos/ coisas diferenciados [singulares]. Um conjunto abarca uma coleção de elementos e coisas que foram representadas em sua particular “anatomia”, por assim dizer. De modo que, por conseguinte, uma situação ao definir-se desta forma apresenta como tal aqueles elementos que existem [por serem contados] e os separa não apenas entre si [em subconjuntos reunidos na especificidade atribuída a cada elemento/ coisa que os conforma como subconjunto], mas também aos que não foram contados. Com isso, tem-se que aquilo que não é contado não existe, pois não foi representado [diferenciado e reunido em subconjunto de elementos singulares] na medida em que não se apresentou à operação. Trata-se de um processo de contagem e verificação [de saber] que não implica necessariamente num processo de verdade.

O “estado da situação” é o processo no qual temos a reorganização daquele contingente de subconjuntos contados no interior de uma situação [que sempre é maior que o conjunto que os absorve dada a infinidade absoluta de elementos/ coisas passíveis de serem contados]. Procura-se estipular a precisão que venha a estruturar de dada maneira o excesso dos subconjuntos existentes no sentido de conectá-los [forçadamente] sempre ao conjunto já representado [retirando do excesso a possível potência ainda não explorada/ não contada dela]. Isto é, temos um procedimento de quantificação duplicada agora centrada na figura do excesso dos subconjuntos contidos nos conjuntos de uma “situação”. Orientado a garantir que naquele excesso em que há “incontável” não se apresente aquilo que não existia anteriormente. Que no interior do excesso de coleção de elementos e coisas de subconjuntos de subconjuntos de um dado conjunto não se apresente algo a ser possivelmente diferenciado [portanto, contado] e, por fim, capaz de gerar um novo processo colapsando o precedente e já dado.

Acredito que na minha última nota tenha tido dificuldade de expor a organização do processo de conformação das operações que apresentam uma “situação” e um “estado da situação”. Entre outras coisas, por não saber me posicionar adequadamente com relação aos dois conceitos e o processo de verdade. Neste momento penso que ambos quando apresentados assim exprimem a não efetivação deste, na medida em que a verdade se define por uma incorporação subjetiva na qual um indivíduo converte-se num sujeito por meio de uma decisão [p.133]. Decisão que, por definição, representa aquilo que antes dela não existia, não era nominável, não estava contado ou contido em qualquer subconjunto dos conjuntos organizados. Dessa forma, se a verdade dimensiona-se também por aquilo que é novo [no sentido de impossível até apresentar-se como existente], por tabela a “situação” e/ ou o “estado da situação” são operações/ procedimentos de verificação, cotejo e administração daquilo que existe [ou daquele que deve existir de determinada e precisa forma].

Do ponto de vista político me parece problemático inserir, então,o Estado [p.138/ 139] num processo de emancipação coletiva [p.132]. Ou, ao menos, inseri-lo em sua representação atual, vigente e existente. Pois me parece que o Estado, dessa forma, expressaria o instante/ operação que descrevemos sob o conceito de “estado da situação”. Na medida em que se trata de uma forma de mapeamento e ordenação daquilo que existe e mais precisamente que não deve existir como tal – para não colpsar o já dado e existente. O procedimento formal que legitima o Estado em nossa sociedade, assim, me parece semelhante, no sentido ontológico, do “estado da situação”, pois se orienta ao possível e de antemão figura o que não é possível: é socialmente possível viver sob o regime da propriedade privada e é impossível viver sem esta; por tabela, procura garantir, por meio de suas próprias operações [jurídicas, ideológicas, políticas, econômicas etc], por exemplo. Se assim o for, acredito que Badiou oferece mais uma provocação ao marxismo através da construção da “hipótese comunista”:

Qual o papel do Estado num processo de transição socialista?

Quanto a nossa discussão, centramo-nos em questões operacionais do encontro, de sua dinâmica e do conteúdo [até então estudado]. Procurando verificar até onde estamos próximos e fiéis ao exposto no projeto do CEII – e até onde assim deveria o ser, em realidade. A discussão sobre a nota de trabalho abriu questões mais abrangentes. Afirmou-se de que estas devem representar o pensamento coletivo do próprio Círculo e para isto impõem dimensões de ordem forma e também de conteúdo: para fins de representação do pensamento coletivo, por exemplo, devemos apresentar o itinerário conceitual por nós estudados [identificando autores, páginas etc daquilo que citamos]; o conteúdo das notas como resultado mínimo do trabalho de cada integrante deveria implicar a universalidade do pensamento do CEII, sob o esforço de conformar um pensamento contínuo e elaborado por meio de pontos de partida partilhados.

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