NOTA #2 [23/09/2014] (RJ I)

Para mim, é assunto difícil. Não saberia discernir de forma teoricamente clara o que penso sobre o problema. Mas acho que uma distinção precisa ser tentada tanto quanto se pode. Do que acompanho, e aprendi a concordar, faz parte da hipótese lacaniana que o “sofrimento psíquico” não resulta das “interdições” que internalizamos/criamos/enfrentamos em nossa “experiência subjetiva” – uso aspas porque estou completamente alheio à precisão formal da discussão. O tipo de sofrimento ao qual estaríamos expostos é mais produto das experiências de “gozo” e “autonomia” proporcionadas do que seu inverso.

Apreendido grosseiramente, para mim, essa interpretação parece profícua.

Se estou certo, ainda que de modo precário, usando o jargão político-esquerdista para fazer uma relação entre psicanálise e marxismo, interpretaria que os processos de dominação característicos de nosso tempo são estranhos. Porque, ao contrário do que se assume, a dominação – e tudo o que acarreta ao dominado – resulta de vínculos e relações que ele estabelece num contexto de “liberdade” e não de “limite”.

Por exemplo, poderia arriscar que parte da inefetividade das práticas históricas de luta política contra a ordem são resultado de sua indiscernibilidade em relação ao que pretende transformar. Quero dizer: a assunção que a luta política, radical, de transformação, pode ser figurada pelo “romper das amarras” pressupõe que a experiência social de dominação impede que uma potência, genuína e ontologicamente distinta da “ordem”, venha à tona. A luta contrahegemônica predominante, talvez para interpretar o que deu errado com seu passado “totalitário”, assimilou essa ideia.

Hoje, no entanto, as organizações políticas permanecem falhando. Os indivíduos não são mais causados por elas, cada vez menos estes são atraídos por elas. Imediatamente pode-se dizer que a razão é sua incapacidade de sustentar as ideias que as constituem. Ainda há, evidente, lutas contra a ordem. E são absolutamente marginais e inócuas as que não assimilaram o fracasso das experiências políticas da esquerda “coletivista” do século XX. De todo modo, o totalitarismo permanece como espectro e sempre pode-se avaliar que o “partido [grêmio estudantil, sindicato, associação de moradores etc] é como exército; há hierarquia, atribuições e mando”. Segue-se, sempre visando a manutenção da luta contra ordem, uma autocrítica que, mantendo o princípio de sempre, se corrige: “o partido [grêmio estudantil, sindicato, associação de moradores etc] realmente parece o exército, desfaçamos o que ocasiona isso”. E falha-se novamente. E repete-se o procedimento.

Pelo método da etiqueta tenta-se refundar as lutas sociais e elas falham. Sempre, ao que parece. No que? Suponho, em promover uma experiência que contraste com o mundo. Por que? Porque o repetem em seu ordenamento. Como propõe a interpretação imediata? A ordem e as lutas contra ordem se assemelham nas práticas e nas ideias? Produzem sempre uma experiência de sujeição ao indivíduo? Talvez, sim. Mas, por outro lado, será que a luta não falha em realizar esse contraste porque não promove tão bem quanto o mundo a experiência que se quer almejar? Nesse sentido, o mundo oferece mais que a luta e não menos. Sobre o que? Sobre o que a luta quer oferecer – uma experiência de autonomia, singularidade etc. Nesse caso, não seria o mundo a estar aquém do princípio libertário que motiva as lutas, mas, ao contrário, a própria luta. Ela não o faz, nunca, tão bem quanto o mundo faz. Quer se dizer então que não há ou deve haver luta? Não, evidente que precisamos mantê-la. Mas, ela não faz, nunca, tão bem quanto o mundo o que pretende fazer. Ela, a luta, falha ao promover uma experiência subjetiva que contraste com o dado? Sim, mas diria, novamente, que é mais do que isso: ela não a promove com a mesma intensidade e potência que àquilo que ela quer transformar. Então, a “ideia de liberdade” que anima as iniciativas de emancipação social deve ser abolida? Pensando em Badiou, a ideologia sobre ela, de fato, precisaria ser.

Em nossa última reunião, me lembrei de um cantor popular que disse ao vivo pela televisão para seu milhares de fãs que naquele dia completava quatorze anos de idade. Evidente, ele se referia à sua conversão ao cristianismo. Como esquerdista, imediatamente, fui remetido à ideia do quão era ridículo um homem com mais de quarenta anos imaginar que tem essa idade. Mas será que ele imagina? Tê-la, nesse caso, talvez, signifique sua decisão pela conversão. Declará-la, assim, tem força de inscrição subjetiva e prática. Ele, é claro, não altera a ordem cronológica de seu corpo, mas sua instituição como sujeito etc… Ainda assim, para mim, é possível permanecer com a impressão do quão “ridículo” pode ser esse encadeamento de coisas. Ao mesmo tempo, é notável como hoje a única experiência social que contrasta com o mundo é a religiosa. Ela oferece uma experiência subjetiva que, sob uma asserção, que transforma o mundo porque transforma o homem. Quando diz-se “eu tenho quatorze anos”, não duplica-se a realidade, mas dividi-se a vida: não há Céu/Inferno; se nasce, vive, e renascendo, viver-se-á sobre a morte daquela primeira vida – de modo similar, se entendi, ao que discutimos na última reunião com São Paulo. Enfim, existem todas as sutilezas e contradições da coisa, além do misticismo etc. Pode-se considerar tudo isso. No entanto, para mim, é surpreendente, por exemplo, como a experiência política quando faz sua asserção é completamente irrelevante. Digo, não parece dividir nada. Quando ingressamos num coletivo, qualquer que seja, o ingresso e permanência nele não difere de nascer e viver, por assim dizer. A experiência política cada vez menos parece ser capaz de se dispor à uma declaração, um ato. O cantor, imagino, procurou a religião por aquilo que não era para mudar o mundo. O militante, penso, procura a política pelo que já é para transformar o mundo.

Bem, se há um “lugar” em que o indivíduo é requerido pelo que já é não seria a sociedade realmente existente? Basta ver televisão, conversar com qualquer um, para percebê-lo.

Não à toa parece ser tão insuportável, limite para toda política, tocar nele.

 

 

 

 

 

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