Nota #2 [27/08/2012]

Joseph Jacotot, professor universitário do século XIX, presenciou algo que o faria propor um modo para a emancipação intelectual de todos. Sua aventura intelectual começou quando o então professor precisava inventar um meio para ensinar francês aos seus alunos da Universidade de Louvain, embora eles ignorassem a língua francesa e Jacotot ignorasse o holandês. Uma possível solução foi encontrada: havia uma nova edição bilíngue do Telêmaco, assim os alunos deveriam aprender o francês sozinhos e Jacotot verificaria a eficácia do “método”. O resultado foi surpreendente – os alunos aprenderam francês sem nenhum professor, sabiam escrever frases corretamente, conjugar e declinar e haviam aprendido tudo por si só. Havia-se inventado o Ensino Universal, um meio de emancipação intelectual válido para qualquer um. Descobrira-se que todo homem era virtualmente igual, que possuíam a mesma inteligência e que o método iluminista de ensino não era senão uma forma de reprodução da desigualdade. Um mestre explicador não é necessário para que o aprendiz aprenda, mas sim um mestre com vontade de verificar que o aprendiz se esforçava, utilizava sua inteligência e aprendia. Esse mestre deve ser preferencialmente ignorante para tornar o ensino mais eficaz. Nas palavras de Jacques Rancière: “pode-se ensinar o que se ignora, desde que se emancipe o aluno; isso é, que se force o aluno a usar sua própria inteligência”.

Contudo, algumas perguntas me parecem necessárias: será o mestre [ignorante] realmente necessário? Um indivíduo não poderia emancipar a si próprio sem um mestre? Afinal, Jacotot apenas verificara que seus alunos realmente haviam aprendido francês. Em alguns casos, parece-me que não é necessário mestre algum, os aprendizes podem aprender sozinhos e fazer também o papel do mestre ao verificar se realmente aprenderam; se realmente se emancipavam e faziam uso de sua própria inteligência.

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