Nota #2 [28/05/2013]

A superação lacano-zizekiana da crítica à ideologia de Althusser

Althusser deu um passo além da crítica tradicional da ideologia, enraizando-a nas práticas sociais e na própria constituição “alienada” da subjetividade, como em sua tese acerca da interpelação ideológica como gesto fundamental da ideologia. Quando alguém “diz psiu!”, por exemplo, e nós olhamos para traz, é porque subjetivamos a mensagem como se fosse dirigida a nós, como se nós próprios a estivéssemos enviando para nós. Esse é o mecanismo pelo qual “nos tornamos o que somos”, isto é, que assumimos o discurso de um certo lugar de enunciação “médico, padre ou policial, que pensa estar contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social.”

No entanto, Althusser se equivoca ao supor que a interpelação simbólica seria um processo inteiramente BEM SUCEDIDO, isto é, ocorreria sem um certo “resto”, algo no coração da subjetividade que resiste ao comando ideológico. Afinal, a palavra do Outro guarda uma dimensão de desejo intangível, que me leva a retrucar: Che Vuoi? Isto é, o que este Outro enigmático quer de mim através de sua interpelação imperativa? O Outro me interpela dizendo, “Seja homem!”, mas o que isso que dizer exatamente no plano da enunciação, antes que do enunciado? O que esse Outro demanda de mim verdadeiramente?

Aí incide a perspectiva de Lacan/Zizek acerca da FANTASIA COMO RESPOSTA AO DESEJO DO OUTRO, abordada no texto  de Zizek “O gráfico do desejo, uma leitura política”:  “A fantasia, esconde o fato de que o Outro, a ordem simbólica, se estrutura em torno de uma impossibilidade traumática, em torno de algo que não pode ser simbolizado, isto é, o real do gozo: através da fantasia o gozo é domesticado; e que acontece com o desejo, portanto, depois de termos atravessado a fantasia? A resposta de Lacan, nas últimas páginas de seu seminário 11, é precisamente a pulsão, e finalmente, a pulsão de morte.”

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