NOTA #2 [31/07/2018] (RJ I)

Diante da ausência de futuro retornar ao passado

 

Uma das consequências que temos extraído da hipótese diagnóstica de que nossas sociedades não possuem mais expectativa de futuro refere-se ao campo político. Para ilustrar uma posição política possível – a meu ver conservadora – trago um filme recente.

 

Um filme francês em cartaz cujo título é “À beira mar” que versa sobre o processo de gentrificação que a cidade de Marselha sofreu por volta dos anos 90 e 2000. Nesta época os únicos resistentes foram alguns senhores que lutaram para preservar o sentido comunitário e familiar da cidade. A urbanização e o anonimato tornaram-se inevitáveis mas um único morador, um senhor bem idoso – inclusive, doente em estado vegetativo -, representa ainda os velhos tempos com seu restaurante modesto e sua casa de família. A questão do filme é se os seus filhos – que representavam a juventude na época da gentrificação – irão manter o propósito do pai de resistir ao capital e não vender suas propriedades para virarem hotéis e cafés para turistas.

O filme é um conjunto de flash backs sobre como esses velhos jovens foram felizes na infância no local onde nasceram e foram criados. Esse passado, no entanto, não é suficiente para mobilizá-los a conservar o modo de vida antigo. Ao mesmo tempo, dois personagens mais jovens que os filhos do senhor moribundo são apresentados como completamente indiferentes à situação. Cada um deles tem seu emprego em Paris e estão preocupados em manter seu modo de vida na capital. Eis que então acontece algo inesperado: duas crianças, imigrantes árabes que escaparam de um naufrágio, são encontradas na região pelos filhos do senhor. Elas trazem consigo o seguinte lema árabe: “deve-se ficar onde se criou raízes”. Essas crianças evocam essa lema se referindo ao irmão que elas enterraram em Marselha por não ter sobrevivido ao naufrágio. O que é curioso, uma vez que elas são imigrantes e as raízes a que elas se referem é a do irmão morto. Com a chegada dessas crianças e desse lema as raízes dos franceses renasce e eles finalmente decidem manter a memória do pai.

 

O filme é despretensioso e não defende nenhuma tese política. No entanto, pode-se entrever o papel significativo do passado e do laço familiar e comunitário como o único meio de resistência. Diante da gentrificação, do anonimato e da circulação cega do capital – que representa o futuro – voltar ao passado, às raízes familiares e comunitárias.

 

Não se faz mais filme francês como antigamente – Rs

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