NOTA #3 [01/08/2017] (RJ I)

Um das regras de ouro da burguesia é a discrição. Excetuando a extravagante lista da Forbes, em que só entra os bilionários que se beneficiam em estar na lista, o público geral não sabe quem é a burguesia, nominalmente falando (porque sentimos na pele sua existência). Mesmo os Estados tem dificuldade de saber o real alcance do patrimônio dessa gente, na medida que parar fugir dos fiscos há muita pulverização da riqueza individual e alocação em paraísos fiscais. Por isso, geralmente no imaginário popular, gente muito rica é artista de televisão ou jogador de futebol.
Daí o espanto com o novo contrato do Neymar. Mas tenham certeza: todas as corporações que se beneficiarão da imagem dele vão ganhar muito, mas muito mais. Além disso, é retrato da nossa condição ideológica comparar o salário do professor com o do Neymar. Acho que mais pertinente seria compararmos as verbas de saúde e educação com a quantidade de dinheiro que sai do país via balanço de pagamento intraempresarial de multinacionais ou do acúmulo de capital do nossos amados rendistas. Mas aí é “justo”, né? Feio é o Neymar, de origem pobre, se tornar rico. A nossa mais terrível miséria é que a classe trabalhadora se odeia.
Por isso é tão importante a psicanálise na classe trabalhadora. Não para incuti-la qualquer coisa próxima de uma consciência de classe. Ela tem plena consciência de sua situação. O que ela não suporta é encarar de frente essa condição, porque é, de fato, insuportável. É a indigência e a nulidade social – ninguém suporta isso. Por isso a psicanálise poderia ser a ferramenta para nos permitir suportar este horror e dar um outro destino ao nosso sofrimento.
Quanto a esse destino, bem…, tenho um palpite, que começa com “comun” e termina com “ismo”. Mas aí a própria psicanálise de hoje (e principalmente os psicanalistas) teria que ser outra coisa.

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