Nota #3 [03/12/2012]

É retomando a pergunta feita por Zizek (1999) que inicio uma tentativa de articulação de pensamento: “como foi possível que Marx, em sua análise do mundo das mercadorias, produzisse uma noção que se aplica à análise dos sonhos, dos fenômenos histéricos e assim por diante?”.

Demos um passo atrás e fomos em Freud para ver como sua análise dos sonhos se procedia, para então partir para um ensaio da análise das mercadorias para ver o que Zizek chama de homologia metodológica.

É no capitulo sobre “O Trabalho do Sonho” que Freud (2001) nos mostra sobre seu método.  Encontramos, quando Freud expõe sobre uma pergunta se as faculdades mentais trabalhariam de forma integral no sonho ou apenas parte dela, uma resposta aparentemente contraditória: ambas (no que diz respeito à qualidade da resposta – ela trabalha inteiramente e parcialmente na formação dos sonhos). Essa resposta nos aponta para uma peculiaridade de natureza no que diz respeito ao processo onírico, e que não teria como pensá-lo desta maneira diretiva.

Além disso, Freud é categórico quando nos diz de uma irrelevância para a psicanálise quanto ao conteúdo manifesto do sonho, o “rebus” do sonho: “por mais que os pensamentos oníricos levantem questões interessantes e enigmáticas, estas questões não têm, afinal, nenhuma relação especial com os sonhos e não precisam ser tratadas entre os problemas destes” (p.490). Em nota de rodapé para esta citação, Freud retoma mais uma vez que os sonhos são uma forma particular do pensamento e que o trabalho do sonho que cria esta forma e, é ele mesmo, a essência do sonho.

Sobre o trabalho do sonho, Freud nos diz: “o trabalho do sonho não é apenas mais descuidado, mais irracional, mais esquecido e mais incompleto que o pensamento de vigília; é inteiramente diferente em termos qualitativos.” (p. 490. Grifos nossos). Trata-se de um trabalho de uma natureza racional e irracional, que comporta essa contradição que acusa uma divisão. Divisão esta que aponta para um pensamento inconsciente (aqui é a máxima do conceito de inconsciente freudiano como aquilo que não é passível de consciência, posto que perderia sua condição de impossibilidade – segundo a modalidade lógica de Aristóteles).

Retomando a homologia proposta por Zizek sobre a análise das mercadorias,  pensemos nos seguintes aspectos: a mercadoria ultrapassa o seu valor-de-uso, ou seja, ela contém mais do que um produto para satisfazer uma necessidade humana; seu caráter misterioso não está diretamente relacionado ao dispêndio de trabalho necessário para realizá-la; a mercadoria tem uma forma social. Como em Freud, o conteúdo manifesto dos sonhos diz menos do que o trabalho dos sonhos; as suas articulações feitas pelo conteúdo latente não estão relacionadas diretamente ao pensamento que suscitou o sonho e o trabalho de transformação para o conteúdo onírico é o que diz do inconsciente. Essa passagem aligeirada e diretiva nos dá pistas desta homologia que precisa ser mais bem elaborada e explorada. E o melhor modo para isto é levantando as próprias críticas, inquietações e reflexões: existem nos dois objetos de análise (mercadorias e sonhos) uma ideia de transbordamento, em que num primeiro momento, ambos poderiam representar mais do que si mesmos? O processo de trabalho diante do produto realizado (feitura de um produto e um sonho sonhado), mesmo que se recolha a posteriori, ainda não diria desse algo que escapa? Ambos os processos (da mercadoria como forma social e do sonho como pensamento inconsciente) denunciam um modo de operar inerente às suas estruturas? Como escapar então do pensamento de que é apenas por meio desses produtos que poderemos chegar à essencialidade de suas operações, e atentarmos exatamente ao processo pelo qual elas seriam apena o produto?

Freud, S. A Interpretação dos Sonhos. Edição Comemorativa dos 100 anos. Rio de Janeiro: Imago, 2001.
Marx, K. O Capital: Crítica da Economia Política, livro I volume I. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2002.
Zizek, S. “Como Marx inventou o sintoma?” In: Um mapa da Ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999.

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