Nota #3 [03/12/2013]

71A universalidade abstrata do nosso tempo. Uma porta de entrada sintética e clara ao escopo de “Ser e Evento”, de Alain Badiou, encontra-se no “despretensioso” prefácio escrito pelo filósofo à edição em inglês da obra. Para se ter uma medida dessa despretensão basta ler a modesta declaração contida no primeiro parágrafo, no qual Badiou afirma que, desde a publicação do livro, tinha consciência de ter entrado para a história da filosofia, e em grande estilo, por ter produzido uma obra que apresentava um sistema de filosofia destinado a ter uma legião de intérpretes e comentadores ao longo dos séculos (p. XI).
É bem verdade que logo no parágrafo seguinte ele assinala que a demora de vintes anos para a tradução da obra em inglês, somada ao fato de que, ainda assim, esta tradução sai pouco antes, mas ainda assim antes, da tradução em alemão, não parecem depor a favor daquela prospecção de imortalidade. Todavia, essa constatação aparece apenas para ser logo em seguida minimizada com a hipótese de que poderia sempre se tratar de uma “mera questão de moda”. A concisa descrição do nosso tempo – seja do ponto de vista da situação histórica, seja do ponto de vista mais especificamente intelectual – não deixa dúvidas de que esta hipótese não é uma “mera hipótese”.
Do ponto de vista d(o que chamamos aqui)a situação histórica, Badiou destaca três características inter-relacionadas do nosso tempo: 1) a democracia em sua forma eleitoral e corrupta; 2) a liberdade como mera liberdade de trocar e consumir; 3) o relativismo cultural. Os aspectos 1) e 2) constituiriam a “universalidade abstrata da nossa época”. Ao lado do domínio desses dois dogmas da opinião pública, estaria – algo paradoxalmente, como o próprio Badiou não deixa de pontuar – o relativismo cultural, que é caracterizada como uma equiparação do valor de tudo que é produzido por seja qual for a cultura. Assinalo, de passagem, que o aparente paradoxo da junção de dogmatismo com relativismo (na medida, sobretudo, que não se trata apenas do dogma do relativismo mesmo, mas da relação entre relativismo e os dois dogmas mencionados) parece ser, na verdade, a combinação própria à lógica capitalista da desterritorialização (o capitalismo não funda um território específico) via reterritorialização (o capitalismo circula por territórios incessantemente produzidos por ele mesmo como equivalentes ou, ao menos mensuráveis pelo dinheiro, e, com isso, intercambiáveis).
Convém assinalar também que, embora todos esses aspectos pareçam ser referidos por Badiou sobretudo à época da primeira edição de “Ser e Evento”, parece-me claro que tratam-se de características ainda vigentes hoje em dia e que, em geral, marcam a situação processo de queda/pós-queda do Muro de Berlim – o que, de resto, vem confirmado pela expressão baiouniana “universalidade abstrata da nossa época”. Por outro lado, a “paralisia do pensamento emancipatório”, os protestos contra o “totalitarismo” e a “frente única” contra o Mal radical parecem características mais especificamente marcantes do processo de desmonte do socialismo real.
Como se pode depreender dos exemplos dados no texto (“tudo que é produto do imaginário é arte, todas as práticas sexuais são formas de amor, etc.”), o relativismo cultural atingiria sobretudo o que ele denomina “procedimentos genéricos” ou “procedimentos de verdade”: arte, amor, ciência, política – pode-se deduzir que os dois últimos, mesmo não citados, também seriam de algum modo afetados pelo relativismo. Com efeito, Badiou afirma que o contexto – da primeira edição do livro, mas, como assinalamos acima, também dos nossos tempos em geral – é uma combinação do “dogmatismo da ‘democracia’ mercantil” com um “acabado ceticismo que reduz os efeitos deverdade a operações antropológicas particulares.” (p. XII; itálico meu)
A esses dois lados, correspondem as duas posturas intelectuais da moda: ou a defesa universal dos “valores” da democracia (a única universalidade publicamente aceita) ou a sofistaria linguística que visa garantir o direito à diferença cultural contra todo tomar partido de uma verdade universal (p. XII). Solidários a essas duas posturas parecem ser a defesa dos direitos humanos, do respeito ao outro via retorno a Kant, bem como outras características já mencionadas mais acima, mais acentuadas, parece-me, quando da época do queda do socialismo real: o combate ao “Mal radical”, ao totalitarismo e a paralisia do pensamento emancipatório. (p. XI)
Do ponto de vista mais estritamente intelectual, e mesmo acadêmico, completam o quadro da situação intelectual da nossa época a cisão entre “analíticos”, a tradição anglo-saxônica de filosofia analítica da linguagem, mais ligada à lógica, às ciências naturais e à matemática e que se vê como mais “racional” – e “continentais”, a tradição sobretudo francesa e alemã do pensamento mais ligado à arte, à poesia e, por isso, vista como mais (próxima do) “irracional”, sobretudo pela tradição analítica (p. XIII-XIV). Essa cisão não sobrepõe nem tampouco se reduz àquelas duas “modas intelectuais”, mas como que as atravessa diagonalmente. Ao pensar (n)a compossibilidade de matema e poema, Badiou, num mesmo movimento, procura marcar a “nulidade” da oposição entre pensamento analítico e pensamento continental, manter o vínculo da filosofia com o absoluto (o universal) bem como colocar em questão os tempos de “reação”, “fraqueza intelectual”, indo no sentido oposto ao “horroroso destino acadêmico da especialização”. Claro que, com isso, ele está sujeito a críticas tanto de analíticos quanto de continentais. (p. XIV)
Teríamos, assim, um esboço do horizonte do nosso tempo tal como o vê Badiou, bem como um vislumbre do seu pensamento, que agora é preciso ver um pouco mais de perto.
73Situação, ser e verdade. No prefácio em que nos concentramos aqui, Badiou delimita em quatro pontos o projeto de “Ser e Evento” (p. XII-XIII). O primeiro deles afirma que “Situações não são nada mais, em seu ser, do que puras multiplicidades indiferentes.” Isso significaria que se a verdade existe e/ou se se deve buscar algo que possa desempenhar uma função normativa, isso não deve ser buscado em nenhuma diferença, mas sim no campo do indiferente, sem diferenças. Por isso, o relativismo cultural nada tem a dizer sobre a verdade, pois o máximo que ele pode fazer é constatar a existência de diferentes situações (ou mundos). Procurando traduzir para termos que não estão no texto, e mais próximos do “São Paulo”, poder-se-ia dizer que o relativismo cultural reconhece apenas universais abstratos, ou o que poderíamos chamar de particulares (gay, negro, mulher, índio, etc.): pois se trata daquilo que está entre o que é absolutamenteuniversal para poder incluir indiferentemente todos e o que é radicalmente singular para poder abrir-se à multiplicidade infinita deste. Ora, o reconhecimento de que ambos os polos são na verdade o mesmo está na ideia de universalidade singular – ou no que, dando um passo a mais, eu chamaria simplesmente de singularidade enquanto categoria, visando com isso expressar que o mais comum, o universal absoluto é o ser singular, único, de cada ente.
Uma vez que o ser não “seria” senão multiplicidade pura, este é tão só a estrutura de toda e cada situação. Vê-se também que a verdade parece ter, para Badiou, um caráter normativo. É o que parece confirmado pelos pontos que se seguem, onde se poderá entrever também que, ao que parece, tratar-se-ia de uma “norma” para o sujeito se constituir enquanto tal.
79. Situação, evento e verdade. O segundo ponto a ser desenvolvido em “Ser e Evento” é o de que uma situação, uma ordem de coisas não produz verdade. A verdade se constitui na ruptura da ordem que a (?) suporta; ela tem lugar numa emergência não calculável, isto é: não redutível a, não prevista por e não exprimível com os predicados preconizados pela situação (e por qualquer situação?).
Ou seja: nenhum dos predicados particulares da situação pode dar conta de um evento-verdade. Como sabemos, esses eventos dizem respeito aos quatro procedimentos genéricos ou procedimentos de verdade já mencionados. Ora, dado que o evento-verdade se subtrai aos predicados particulares da ordem de uma situação, a tentação é assimilar verdade e evento a universal e singular, respectivamente. Pois não seria a singularidade da ruptura que se dá no evento que abre a possibilidade da produção de uma verdade universal? Esta não diz respeito justamente a um múltiplo indiferente?
83Verdade, evento e sujeito. O terceiro ponto é: “o sujeito nada mais é do que uma fidelidade ativa a um evento de verdade”. Isso significa que o sujeito é um militante da verdade. Badiou faz questão de enfatizar que ele retomou a noção de militante em um época em que esta estava totalmente desacreditada. Mais, ainda: a alargou, pois como os eventos de verdade se dão segundo os quatro procedimentos de verdade, da mesma maneira a militância não é só política, mas também (pode ser) amorosa, artística, científica. Não fica claro se isto significa se a militância é a cada vez em um desses procedimentos, pode se dar em mais de um ou se dá necessariamente em todos os quatro. Eu tenderia a dizer que todas essas possibilidades podem se dar e que o filósofo é aquele que, de certa maneira, milita em todos esses campos. Nesse caso,toda questão estaria em definir o sentido deste “de certa maneira”. A título de indicação, se poderia dizer: é enquanto um que pensa o conceito de verdade de modo que este possa dar conta da possibilidade conjunta dos procedimentos de verdade de sua época. (Talvez seja (também) nesse sentido que Badiou possa dizer que o que ele faz nada mais é do que filósofos como Platão e Hegel fizeram, em sua respectiva época (p. XIV))
89O ser da verdade. O quarto ponto é o de que o ser da verdade é uma exceção a todo e qualquer predicado constituído em uma situação ou mundo. Em outras palavras, embora se dê em um mundo, a verdade se subtrai a, não retém nenhum predicado desse mundo. Em outros termos: ela é uma multiplicidade pura. O ser dessa verdade é, por isso, denominado de “genérico”.
A primeira consequência disso é que a verdade concerne (ou pode concernir) ao qualquer um: isso deriva, negativamente, da sua subtração a todo predicado; o que, dito segundo o seu avesso positivo, quer dizer que isso deriva do fato de que a verdade é uma multiplicidade pura. (Mas se ela é uma tal multiplicidade, ela não estaria do lado do singular, e não do universal, como formulamos mais acima? Essa me parece uma falsa questão, que desaparece se mudarmos a formulação imprecisa dada mais acima: a verdade não é sobre uma multiplicidade, ela éuma multiplicidade. Ou por outra: evento e verdade são dois lados de um mesmo, e entre eles não vige correspondência (não se trata de fazer enunciados verdadeiros sobre o evento). Por outra ainda: a singularidade não é pensada por uma categoria separada dela, mas é a ideia mesma de singularidade, a singularidade enquanto tal (quiçá como já o pensava Platão) que concerne, em sua multiplicidade infinita, a tudo e a todos).
A segunda consequência é: o trabalho de uma verdade é um trabalho infinito. Daí advém que o sujeito (que Badiou, a essa altura, assinala sem dar maiores explicações não ser o “simples animal individual”) é uma dimensão local ativa de um procedimento de verdade, ou procedimento genérico.
97A ontologia (inconsciente?) de Badiou. Esses quatro ponto concernentes à verdade, à situação, ao evento e ao sujeito em sua interligação são os que Badiou afirma ter procurado desenvolver de maneira coerente em “Ser e Evento”. Mais, ainda: é para isso que ele arregimentou os instrumentos da matemática contemporânea.
E como ele justifica essa operação? De uma maneira no mínimo surpreendente para quem parece subtrair a ontologia à filosofia e confiá-la à matemática. Ele afirma: “Na medida em que o ser, enquanto ser, não é nada além do que pura multiplicidade, é legítimo dizer que ontologia, a ciência do ser enquanto ser, não é nada além do que a matemática ela mesma.” (p. XIII). Ora, suposto que o que Badiou faz nesse prefácio é filosofia e não matemática (e como poderíamos supor outra coisa?), a tese acima é uma afirmação filosófica de caráter ontológico.
Com efeito, trata-se de uma afirmação sobre o ser e não sobre a ciência do ser, isto é, de uma afirmação ontológica e não metaontológica. Para sermos mais precisos, Badiou funda sua afirmação metaontológica (“a matemática é a ciência do ser enquanto ser”) em uma teseontológica (“o ser enquanto ser não é nada além de pura multiplicidade”).
Isso parece mostrar, primeiro, que não é tão simples se subtrair a ontologia da filosofia: se esta expulsa aquela pela porta, a ontologia volta triunfante pela janela. Por outro lado, não implica que Badiou faça só ontologia e que não possa, por fim, confiá-la à matemática. Significa que, para fazê-lo, precisa passar por uma certa compreensão de ser e, mesmo, por uma tese filosófica de base (mais ou menos) explícita sobre este. Trata-se de uma ontologia mínima, apenas o bastante para abrir a porta para (uma interpretação d)o trabalho da matemática, mas ainda assim uma ontologia.
Todavia, se atentarmos para a formulação dada por Badiou aos demais pontos descritos acima: trata-se da situação em seu ser, do ser da verdade. É bem verdade que os outros dois itens (sujeito, evento), não são pensados em referência explícita à noção de ser – embora se diga do sujeito que ele “é nada além de…”. Nesse sentido, o único subtraído ao ser inclusive no nível da linguagem é o termo evento – de maneira coerente, aliás, com o nome da obra cujo prefácio ora analisamos.
Em todo caso, a recorrência desse tipo de formulação em um filósofo em geral rigoroso e cuidadoso com a linguagem, em um momento em que ele define situação e verdade (ou mesmo, talvez, sujeito), e ainda mais na apresentação de uma obra chamada “Ser e Evento”, parece ser tudo menos casual.

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