NOTA #3 [04/04/2017] (RJ I)

Segue abaixo um resumo das “18 psicologias de Karl Marx”, seção do primeiro capítulo do livro Marxism and Psychoanalysis: In or Against Psychology? de David Pavon-Cuellar:

A. A psicologia da determinação material

A psicologia marxiana materialista é essencialmente monista, dissolvendo a psiquê na linguagem, nas relações sociais, forças produtivas e outros aspectos determinantes da vida material.

B. A psicologia da determinação material dominante

O objeto da psicologia emerge entre aqueles dominadores que abstraem sua atividade mental-intelectual do trabalho físico-manual realizado por aqueles que dominam.

C. A psicologia da determinação material histórica

A psiquê determina sua própria determinação histórica 
D. A psicologia dos instintos econômicos

Marx explica o objeto interno da psicologia, o instinto de entesouramento, pelo fato econômico externo, a contradição inerente ao dinheiro.

E. A psicologia das possessões econômicas

A análise marxiana revela que, no capitalismo, a posse se revela não ser apenas o único modo de conhecimento, mas se transforma ainda no único modo de ser. A ontologia é absorvida pela economia.

F. A psicologia das personificações econômicas

Os elementos da economia são encarnados, animados, acordados pelo corpo, energia e mente dos seres humanos, respectivamente. Essas dimensões, por sua vez, ganham personalidade ao personificar o econômico. A ciência marxista da personalidade é uma ciência da economia personificada.

G. A psicologia do capitalista

A consciência e a vontade do capitalista não são aquelas das pessoas que possuem algum capital – são, ao invés, aquelas do capital ele mesmo, que usa pessoas para ganhar consciência e vontade. Sem capitalistas, o capital não poderia ter uma vida consciente e com volição.

H. A psicologia do trabalhador

Proletários existem para existir – trabalham para continuar trabalhando. Marx os define como “trabalho encarnado”, sua única essência pessoal é sua existência explorada como força de trabalho.

I. A psicologia do trabalhador como capital

Na psicologia marxiana econômica e transindividual, assim como o capital adquire consciência e vontade através do capitalista, ele também adquire sua força vital através dos trabalhadores.

J. A psicologia das relações sociais

O capitalismo faz objetos exercerem sua vontade através de sujeitos em suas relações mútuas. Ao invés de pessoas se relacionando através de coisas, as coisas é que se relacionam através de pessoas.

K. A psicologia da individualidade social burguesa

Ao retirar diversos véus ideológicos, a modernidade revela a verdade do indivíduo burguês com seu interesse egoísta e seu caráter explorador. Esses indivíduos não são o ser universal da humanidade, mas apenas uma forma humana particular, culturalmente e historicamente específica, típica da sociedade moderna capitalista européia.

L. A psicologia do ser social

A divisão do individual é o correlato psíquico da desassociação social entre classes, e também, secundariamente, entre o todo da sociedade civil e o estado político da classe dominante.

M. A psicologia das necessidades e do consumo

Na psicologia marxiana, o sistema econômico da cultura produz necessidades e não apenas o que pode satisfazer necessidades, produz consumo e não apenas consumíveis, gostos e não apenas produtos do gosto, personalidades adequadas às mercadorias, e não apenas mercadorias adequadas às personalidades.

N. A psicologia do fetichismo

A sociedade é materializada nas coisas, em objetos assim fetichizados, personificados ou subjetivados, que se relacionam entre si através dos sujeitos – ao invés de existirem sujeitos que se relacionam entre si através dos objetos. Ao invés de uma estrutura social, há uma estrutura econômica.

O. A psicologia da alienação

Mercadorias fetichizadas parecem reter e prometem o retorno, quando consumidas, da dimensão social-subjetiva perdida por aqueles que foram alienados em sua produção. Os alienados perderam aquilo que imaginam encontrar no que é fetichizado.

P. A psicologia da impotência e da vergonha

A alienação é empoderadora para alguns e debilitante para outros, essa assimetria paradoxalmente favorece os enfraquecidos. Na psicologia marxiana, a alienação é uma forma de consciência e de conhecimento para aqueles que a sofrem, enquanto só produz mistificação e obfuscação para aqueles que gozam dela. A vergonha, como reconhecimento da própria alienação, é uma forma de auto-conhecimento.

Q. A psicologia da resistência e da rebelião

Pessoas envergonhadas são revolucionárias, são pessoas que se revoltam contra o que as envergonha, para que assim possam suprimir as condições que lhes embaraçam, como a impotência. Quando sofrem e experimentam sua própria fraqueza, seu sofrimento já foi transformado em uma forma de poder. No capitalismo, o trabalhador mais forte será o mais explorado, o mais dominado, e portanto mais fraco, enquanto que o trabalhador enfraquecido será o mais refratário à exploração, o mais forte e dominador.
R. A psicologia da prática e da transformação

Além de considerar a atividade humana como uma forma de passividade e de sensibilidade, Marx aprecia o aspecto espiritual da prática material do sujeito. Assim, ele oferece uma psicologia materialista dialética que transcende as oposições teóricas simplistas entre espiritualismo idealista e materialismo unilateral.

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