Nota #3 [06/08/2013]

Digamos que Badiou não se aprofunda em descrever e refletir como a ideologia funciona, que a sua questão é muito mais a de pensar como romper com a ideologia. É com esse propósito que Badiou anuncia a importância de São Paulo: Separar arduamente cada processo de verdade da historicidade cultural na qual a opinião pública pretende dissolvê-lo: essa é a operação em que Paulo nos guia. (p.13) Nesse sentido, a perspectiva badiouiana difere bastante daquela do Zizek para quem, conforme lemos em Como Marx inventou o sintoma?, a relação que entretemos com a ideologia é de tal ordem, fantasmática, que a questão é muito mais a de explicitá-la do que propriamente romper com ela. É como se tal explicitação tivesse mais efeito do que qualquer tentativa de superá-la.

De acordo com o meu parco entendimento sobre esses dois autores, a diferença entre eles se deve em grande parte ao fato do filósofo francês trabalhar com a oposição entre saber (situação) e verdade (evento) enquanto o filósofo esloveno opera com a relação dialética – hegeliana – entre saber e verdade. Confirmando esta intuição, Zizek em O sujeito incômodo diz o seguinte sobre a filosofia de Badiou: a oposição badiouiana entre conhecimento e verdade parece girar precisamente à volta da oposição althusseriana entre ideologia e ciência: o conhecimento não autêntico está limitado à ordem positiva do Ser, e é cego no que diz respeito ao seu vazio estrutural, à sua torção sintomal, enquanto a Verdade engajada que subjetiviza fornece uma autêntica visão de uma situação. (p.154) E logo em seguida comenta o quanto a leitura de Badiou sobre São Paulo, baseada nessa oposição entre saber e verdade, é distinta da perspectiva hegeliana sobre o mesmo apóstolo, dizendo o seguinte: Badiou é abertamente anti-hegeliano: não há dialética da Vida e da Morte, no sentido em que o Evento-Verdade da Ressurreição emergiria como a inversão mágica da negatividade em positividade, quando estamos prontos a passar a prova do negativo, a assumir a nossa mortalidade e o sofrimento no seu estádio mais radical. O Evento-Verdade é simplesmente um novo Começo radical: ele designa a intrusão violenta, traumática e contingente de outra dimensão não mediada pelo domínio da finitude terrestre e da corrupção.(p.155)

Evoco essa diferença, ao invés de desenvolver o que já lemos sobre o texto do Badiou, porque voltamos ao texto do Zizek e discutimos na última reunião o papel da categoria psicanalítica do gozo para a compreensão do modo de funcionamento do capitalismo. A maneira como Zizek interpreta a fórmula marxista de que o limite do capital é o próprio capital é diferente da interpretação historicista-evolucionista, segunda a qual o fim do capitalismo é inerente ao seu modo de funcionamento, justamente na medida em que lê o limite à luz da categoria psicanalítica do gozo. Para Zizek o limite do capital não significa o seu fim, assim como na psicanálise o gozo ou a pulsão de morte, definido como um além do princípio do prazer, não significa a ausência de qualquer satisfação. Ao contrário, o gozo é a forma suprema de satisfação, a satisfação com o próprio sofrimento. Dessa forma, o limite do capital ou suas crises, ao invés de levá-lo ao seu fim, é antes a forma suprema de sustentá-lo e perpetuá-lo.

O gozo está assentado numa lógica ou numa lei onde toda tentativa de ruptura não só está fadada ao fracasso, mas pior, reforça ainda mais aquilo com que se deseja romper. Quando Badiou afirma que a contribuição de São Paulo consiste justamente numa nova conexão entre o sujeito e a lei – conexão paradoxal entre um sujeito sem identidade e uma lei sem suporte (p.12) – o que Badiou parece estar querendo dizer é que São Paulo fornece o modo operativo de romper com a lei do gozo, a qual regeria a situação, mas não o Evento-Verdade. No entanto, Badiou não fala propriamente de ruptura, mas antes de subtração, dizendo que a conexão estabelecida por Paulo subtrai a verdade da dominação comunitária, seja de um povo, de uma cidade, de um império, de um território ou de uma classe social (p.12). A minha pergunta é se há uma diferença conceitual entre as categorias clássicas de ruptura, oposição e o conceito badiouiano de subtração. Como veremos, a filosofia de Badiou se pretende materialista e um dos sentidos do seu materialismo é de que a Verdade oriunda do processo de fidelidade do sujeito ao Evento passa necessariamente pela situação, isto é, tem como seu material o próprio saber da situação, sem, no entanto, se reduzir a esse saber.

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