Nota #3 [07/03/2013]

Houve um momento, quem sabe hipotético, em que o homem foi dono de si mesmo. Suas ações derivavam de suas próprias necessidades. Um momento, um lapso de momento no tempo do universo em que ele trabalhou para suprir suas necessidades. O produto desse trabalho no contexto da troca desse mesmo produto entre os homens se deu no âmbito do mercado. Não é possível pensar em troca sem pensar em mercado ou pelo menos na imagem do mercado, logo esse produto de trabalho no contexto do mercado se torna mercadoria. Mercadoria no fundo é o produto do trabalho explicito no campo da troca. A troca, faz do produto, mercadoria, mas não a troca pura e simples, é a troca de produtos equivalentes. Essa troca equivalente é real ou ideológica? A princípio pode parecer real, mas é interessante notar que ela é ideológica; e o que permite uma dedução nesse sentido é perceber que ao tomar a equivalência das trocas de mercadorias, que possui um caráter ideológico, como realidade acarreta no aparecimento do “sintoma” como elemento que subverte a idéia da troca equivalente.

Teria Marx realmente fundado a noção de “sintoma”? Não o sintoma psicanalítico mas o sintoma como categoria de análise política da mercadoria. O que é esse sintoma quando se apresenta sob a forma da ideologia?

Em “O sublime objeto da ideologia Zizek aponta para uma homologia existente entre o método da interpretação dos sonhos por Freud e a forma de análise da mercadoria por Marx, essa homologia no entanto vai até certo ponto. O que a manifestação de um pensamento inconsciente, para Freud é considerado sintomático, em Marx aparece como algo que decorre de algo que Sohn- Rethel  aponta como abstração real.

A abstração real segundo Sohn-Rethel é o tipo de abstração que caracteriza o materialismo histórico enquanto metodologia. Para ele Marx enchergou que uma metodologia de abstração a partir da consciencia não seria suficiente para transpor a lógica da abstração para o materialismo histórico, somente a abstração a partir de uma consciência inscrita no “ser social do homem” permitiria este salto. Zizek nos define o sintoma em Marx como sendo um elemento que subverte qualquer valor universal quando estendido ao seu grau máximo. Ou seja quando falamos de conceitos como liberdade algo contrário ao próprio conceito de liberdade se torna circunscrito no próprio valor da liberdade, ou seja estendendo o conceito de liberdade de forma absoluta caímos em contradição. Da mesma forma o mercado em algum momento abre esta fissura que transforma o homem de, detentor de fatores de produção e de trabalho em apenas detentor da força de trabalho.

O que faz com que a extensão de um ideal abstrato se subverta quando é em fim levado ao o âmbito da PRAXIS. O que faz com que torna possível a existencia deste sintoma? Este sintoma é o que talvez tenho movido o debate da metafísica contemporânea emtre universais e particulares: Platonismo e Nominalismo mas o que é importante notar é que Marx propõe uma abordagem diferente do que a usual quando o assunto é abstração. Sohn-Rethel nos ajuda a perceber que de alguma forma a abstração-real presente no materialismo histórico de Marx representa um comprometimento das idéias com o movimento da história.

Talvez a abstração-real represente o salto necessário (se não um caminho para contornarmos do sintoma) para que não tratemos aqui de categorias, absolutas, infinitas, e portanto [cristãs] e passemos a categorias materiais, históricas, uma consciência histórica.

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