NOTA #3 [12/02/2015] (SP)

Ariadne

 

                Já sabemos pelo adágio popular que não é possível agradar gregos e troianos. Quando se trata de questões sociais o agradar nem entra em voga,  oprime-se qualquer expressão subjetiva que fuja dos padrões sociais. A sociedade atual, moldada por ideologias machistas, racistas, homofóbicas e elitistas, criou diversos estereótipos para definir os grupos sociais minoritários.

Os estereótipos são imagens fixas que envolvem a construção de um conjunto de crenças determinadas pela sociedade, pela cultura em que cada sujeito vive. Essas crenças formam imagens distorcidas que não conseguem representar a realidade em sua complexidade. No caso das mulheres, muitos estereótipos foram construídos ao longo do tempo, como podemos observar na tirinha acima.

(…) ao estereótipo masculino parecem associar-se dimensões de instrumentalidade. Dominância, dinamismo e autonomia; o estereótipo feminino é, por sua vez, associado à passividade, submissão, dependência e expressividade de emoções e de sentimentos para com os outros. Todavia, estes estudos não contemplam analiticamente a assimetria na relação entre sexos. É justamente a noção de assimetria que vem desvelar o desigual valor social implicado nos conteúdos atribuídos aos estereótipos sexuais: o estereótipo masculino consegue reunir não só um maior número de traços, mas também uma maior desejabilidade social do que o estereótipo feminino. (Dicionário da Crítica Feminista, pp. 54-57)

A construção da imagem da mulher como frágil, submissa, incontrolável em seus sentimentos, entre outras características dadas ao feminino, demonstra a dominação do masculino e a assimetria de poder entre homens e mulheres, o que gera o não –lugar da mulher na sociedade e sua subalternidade. Essa posição a qual as mulheres foram alocadas define como direito da sociedade o julgamento do comportamento e do corpo feminino, esse direito é dado, principalmente, ao Estado e aos homens, mas também coloca em conflito as próprias mulheres.  A não-existência política dada as mulheres acaba define o corpo feminino como público, logo aberto à opiniões públicas.

Pela análise que Zizek faz do anti-semitismo podemos repensar essas questões sociais,  como a problemática machista. Zizek escreve que o sistema social ao criar determinados padrões e manter certos preconceitos, nada mais cria do que uma forma de manter a ordem social e justificar as incoerências do próprio sistema – “a ideia santi-semita do judeu nada tem a ver com os judeus; a imagem ideológica do judeu é uma maneira de costurar a incoerência de nosso próprio sistema ideológico”-.  Desse modo, podemos considerar que os estereótipos são a fetichização de um grupo social para que esse se torne o bode expiatório do sistema, de tal forma que as incoerências do sistema ideológico não sejam expostas.

Todavia, como podemos observar na tirinha, as incoerências acabam vindo à tona e questionam quais crenças estamos servindo e qual padrão está sendo imposto. Segundo Zizek, “uma ideologia logra pleno êxito quando até os fatos que à primeira vista a contradizem começam a funcionar como argumentos a seu favor”. Então, combater os aparelhos ideológicos do Estado exige não apenas livra-nos do preconceito e aceitar o outro como um desvio que deve ser tolerado- “Não basta dizer que devemos  livrar-nos dos ‘preconceitos anti-semitas’ e aprender a ver os judeus como eles realmente são- desse modo, certamente continuaremos vítimas desses chamados preconceitos”-. Torna-se necessário, então, questionar esses estereótipos, os discursos cotidianos, as mínimas ações do dia a dia e, principalmente, a extrema necessidade da exceção (da imagem fetichizada que criamos das minorias), que apenas serve como álibi para manter a “coerência” da estrutura social-“ Uma ideologia só “nos pega” para valer quando não sentimos nenhuma oposição entre ela e a realidade -isto é, quando a ideologia consegue determinar o modo de nossa experiência cotidiana da própria realidade.”.

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