NOTA #3 [13/06/2019] (RJ I)

Dialética verdadeira e a falsa
Ficou muito pior pensar a esquerda hoje. Antes da ascenção do bolsonarismo, um dos nossos grande dilemas era a nossa eterna falta de contato com o povo. Apesar de dizermos diariamente que lutávamos por eles, que estamos do “lado certo da história” etc, tínhamos a dificuldade mais simplesmente grotesca de estabelecer um contato mínimo com essa gente. As contradições, de valores, estéticas etc, tornavam insuportável qualquer convívio mais próximo. No entanto, era uma dificuldade que aparecia como uma contradição real para a esquerda. Nos atos, volta e meia as pessoas se entreolhavam e percebiam as mesmas pessoas de sempre, geralmente classe média ou servidor público, e sempre surgia aquela pergunta “cadê o povo?”. Sabíamos que o nosso sublime objeto de desejo era negado constantemente em nossa prática, e isso volta e meia causava mal estar.
Hoje vivemos uma dialética falsa, improdutiva. Hoje importa menos “falar com o povo” e mais ganhar do bolsonarimo, custe o que custar. O problema é que essa negação não é uma negação de fato, ela não esconde nada, não joga pra escanteio nenhuma contradição. A negação atual é uma negação abstrata da besta política que ajudamos todos estes anos a alimentar em nosso imaginário. Nisso, caímos em duas armadilhas. A primeira é que deixamos de lado a boa dialética que estávamos travando, da nossa contradição em relação ao povo. E segundo que estamos nos deixando levar por uma falsa dialética, que na verdade é apenas uma identificação binária que retroalimenta os dois polos o tempo todo, e, pior, torna o nosso inimigo cada vez mais forte, pois a força do bolsonarismo vem justamente da negação de tudo que lembre a esquerda. E também está ganhando por outro lado, com forte inserção nas massas. Afinal, numa sociedade repleta de homens desempregados destituídos de sua força familiar, não surpreende que uma miragem fálica ganhe tanta força – ou seja, se a gente insistir, a gente perde. Portanto, não adianta a gente dizer que temos o pau maior, que somos mais inteligentes, intelectuais, ou outras idiotices. Temos que inventar uma nova prática.
Saiu ontem um video do porta do fundos chamado balburdia. A ideia era ironizar os bolsominion que acham as universidades um antro de perversão. Mas o vídeo é apenas uma peça de propaganda para a própria esquerda (e para setores da direita continuarem nos criticando). Acho que a pergunta melhor poderia ser “que tipo de universidade temos para que a sociedade acredite que ela seja uma balbúrdia?”
A meu ver, o desafio seria tornar a negação do bolsonarismo uma negação verdadeira. Ou seja, ao menos tentar entender, escutar minimante, os motivos reais que fazem essas pessoas nos odiarem. Despersonalizar o ódio e parar para escutar (na boa escuta, óbvio. Sem a escuta soberba que marcou o final das eleições do ano passado, onde todo mundo “queria conversar”, mas apenas para convencer as pessoas).
Sei que é muito difícil, no limite do insuportável. Mas é a opção comunista desde sempre: escutar. Escutar aquilo que nos é estranho, suportar este sofrimento, se permitir o contato com o incomum. Pois mesmo na palavra in-comum, ainda devemos tentar ver o radical -comum.

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