Nota #3 [13/08/2013]

O que são as notas de trabalho?
Para Camarada A.V.

As notas de trabalho foram criadas para, principalmente, servirem de mecanismo para avaliação de permanência de membros no Círculo. Duas são as exigências mínimas para ser membro do CEII: comparecer a um número de mínimo de reuniões por mês e escrever as notas de trabalho de cada reunião.

As notas de trabalho são comentários feitos por membros sobre as reuniões, cada uma delas. Elas têm caráter bastante aberto. Elas só precisam ter alguma pertinência quanto ao que foi dito e debatido nas reuniões a que elas se referem. Não há nenhuma exigência do ponto de vista da formatação e do conteúdo. Elas podem ser somente de um parágrafo ou de quantas páginas quiser. Elas podem apresentar uma reflexão elaborada sobre um tema da reunião ou ser somente uma breve anotação com perguntas. A única exigência é que elas sejam referentes ao debate de uma reunião específica.

No decorrer das atividades do CEII, as notas de trabalho foram paulatinamente ocupando um papel central. Sobre elas, e às vezes através delas, alguns debates foram travados. Um dos problemas que persiste é: por que, apesar do engajamento, muitos membros não conseguem fazer as notas exigidas? A desculpa de que elas dariam trabalho extra excessivo aos membros não faz sentido, já que elas podem ser bastante breves. Imagino que escrever um parágrafo de uma ou duas linhas não deva ser um sacrifício extremo, principalmente considerando um público eminentemente universitário e bastante inserido no mundo das redes sociais, onde se escreve o tempo todo. Então, o impeditivo passa por outros termos.

Saber exatamente os motivos que cada membro levou a não fazer as notas é impossível. No entanto, escutando algumas reuniões mais antigas, percebemos uma justificativa recorrente muito curiosa: alguns membros não botavam as notas em dia porque não queriam que ela fosse feita “de qualquer jeito”. Vejam que parece realmente um paradoxo: para ficar no CEII é necessário que se faça as notas, mas como o CEII não “merecia” notas feitas “de qualquer jeito”, os membros não faziam as notas, e assim acabavam criando as condições para serem desligados. Então a situação era contraditória: os membros se sentiam verdadeiramente envolvidos com CEII, mas o envolvimento aparentava ser tão exagerado que não conseguiam cumprir com as tarefas totalmente simples que eram exigidas.

No entanto, essa aparente contradição se desfaz se nós pensarmos a situação a partir da relação do objeto causa de desejo na psicanálise. Na psicanálise, o paradoxo do desejo implica que, à medida que o sujeito se aproxima da possibilidade de realização do seu desejo, um horror lhe acomete de tão forma que ele pode vir a buscar um subterfúgio a ele. Ora, não foi exatamente isso que aconteceu com alguns membros que foram desligados do CEII por causa das notas? No CEII eles têm tiveram a total liberdade de pensar e militar a política. A forma e o destino do CEII estão abertos – são seus membros que a definem. No entanto, quando esses membros se vêem lançados na condição de terem que assumir esse destino, um destino que em princípio seria do desejo de todos, já que ali estávamos em busca de sustentar uma política emancipatória, eles declinavam. Para aqueles que permaneceram no CEII a situação não é diferente. Volta e meia as notas de trabalho se acumulam e precisamos criar uma pauta específica numa reunião para resolvermos a situação.

Ora, então por que a nossa resistência? Se nós olharmos as notas feitas até o momento vamos começar a entender. Na leitura delas salta aos olhos a qualidade dos textos. Mesmo as notas mais curtas e simples, todas tentam tratar de um tema de forma mais densa e relacionada ao conteúdo das reuniões. Curiosamente, as notas de trabalho cumpriram as exigências dos membros desligados: eles não são notas quaisquer. E o surgimento deste rigor na feitura das notas foi espontâneo. Na verdade, pelo contrário, o que todos salientavam nas reuniões é que as notas deveriam ser simples, de forma que o trabalho não acumulasse e que também não tivéssemos mais trabalho extra. Contudo, a nota ganhou uma dimensão de importância que nós mesmos não esperávamos.

Nelas vemos operar o estilo de cada um. O estilo aqui considerado como aquilo que traz conseqüências e carrega algo do sintoma que nos atravessa. Que as notas produzem conseqüências não tenhamos dúvidas. Consequências para os membros do CEII como também para o público externo (por exemplo, somos conhecidos dentro do Partido Socialismo e Liberdade como um grupo “que produz muito”). Além disso, as notas carregam algo de nós. As nossas aspirações, nossas demandas de políticas, nossos narcisismos estão completamente presentes nelas.

Parafraseando um personagem famoso da televisão, “sem querer, querendo” criamos uma forma de trabalho em que o nosso desejo está implicado. Não escrevemos para atender a demanda de nenhum Grande Outro (por exemplo, Universidade, Capes, CNPQ etc). O Partido aparece como o emblema em que os limites da história nos aparece, circunscrevendo as coordenadas do que se escreve. Diferente do capitalismo, em que o trabalho está ligado quase exclusivamente ao atendimento de uma demanda (no caso da classe trabalhadora, uma demanda que se confunde com a sua própria sobrevivência física), as nossas “queridas e trabalhosas” notas têm nos dado a oportunidade de vivenciar uma experiência coletiva em que no trabalho o desejo tenha lugar. Por isso que, com toda a ingenuidade que isso supõe, digo: nós acreditamos realmente que nossas notas de trabalho podem mudar o mundo. O mundo é que ainda não percebeu que pode ser mudado por elas.

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