NOTA #3 [16/01/2018] (RJ I)

No presente artigo, Alain Badiou defende uma posição oposta àquela defendida na mesma edição por Roger Establet, que propõe considerar a cultura como uma sub-categoria da ideologia; Badiou insiste, ao contrário [à l’inverse], sobre a “autonomia” da arte. Ele começa por apontar a contradição que existe na tradição marxista entre uma teoria da arte que sublinha o caráter ideológico desta, e uma prática crítica que se liga à limpeza [dégager], por traz dos panos [derrière la voile] da ideologia de classe do autor, la verité du réel que parvient malgré tout à saisir l’art. Badiou critica o caráter simplista de uma tal análise de relação da obra ao real e sublinha o caráter complexo da posição ideológica de um autor, distinguindo “ser de classe”, da “posição de classe”, da “atitude de classe” e do “estudo de classe, tantos conceitos que ele retoma de Mao Tsé-Tung. Badiou discute em seguida uma primeira teoria da autonomia da arte, tal como é proposta por Pierre Macherey. A obra de arte não se contenta em refletir uma ideologia; traduzindo-a em sinais e dando-lhe uma forma, a obra mostra a ideologia em todo fechado a partir do qual é possível apreender os limites; a obra se livra da ideologia dando para vê-la como de “fora”. Uma tal teoria, para Badiou, não vai suficientemente longe, porque sustenta que a obra trabalha em primeira instância com materiais ideológicos, que ela transforma e reconfigura. Badiou tenta mostrar o contrário, a partir do exemplo de “máximas” que pontuam os romances, que o material que trabalha a obra não é ideológico, mas sim estético – da ideologia transformada, porque produz por um “modo de produção estético”. A questão da relação entre a obra e seu fora não se põe e, portanto, não tem lugar para se por, porque o fora ideológico não integra a obra a não ser sob a forma que já é estética.

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