NOTA #3 (18/02/17) PR

“Bolsonaro é uma aberração? Bom. Faço uma autobiografia. Sou anarquista desde a barriga da minha mãe. Cresci no movimento punk se SP. Desde os 15 anos, minha formação foi basicamente: poetas malditos do século XIX, Rimbaud, os beats, os surrealistas, Bakunin, Kropotkin, Baudelaire, Sade, Lautréamont, Doors, Hendrix, psicodelia, contracultura, pancadaria. Não me interessava pela esquerda e nem por Marx. O meu gosto por Marx é tardio. Pareciam-me muito organizados. Muito racionais. Racionais demais para serem verdadeiros. Custei a comprar a narrativa de uma emancipação coletiva. Ainda hoje ainda não me desce bem.

Entre os 25 e os 30 anos, tive um colapso. Muitas portadas. Puxadas de tapete, separações, golpes, humilhações, vigarices, perversões. Traições de todos os lados. Um verdadeiro corredor polonês. Sim. Também fui mau e escroto em alguns casos. Sofri e fiz sofrer. Qual o resultado? O discurso da esquerda progressista, terceira-via, cabeça, racional, cult, Vila Madalena, equilibrada e bacana me parecia extremamente superficial diante dos problemas existenciais que eu estava passando. Onde eu fui buscar insumo? No radicalismo da estrema-direita.

Li, muito e intensamente, coisas que vcs nem acreditam. Autores e obras cujos nomes hoje chego a ter vergonha de citar em público. Por quê? Porque essa crise me demonstrou a platitude e a mentira da democracia ocidental. Comecei a perceber a inoperância dos termos médios, sejam eles o liberalismo aguado dos liberais ou a democracia aguada das esquerdas liberais. Quase me converti ao Islã. Embora nunca tenha sequer cogitado qualquer ato de violência, comecei a perceber uma estranha e sombria racionalidade no terrorismo. Quase como uma fatalidade indesejada do sistema.

Felizmente, a vida resolveu em mim as contradições. O ódio se dissolveu em compreensão. As más experiências foram transformadas por experiências boas. Voltei a ter bons encontros e paixões felizes, como diria Espinosa. Ou seja: voltei a ver a vida como potência. Hoje, para mim, aquela alma ressentida, sombria e beligerante, conservadora e combativa, parece a alma de outra pessoa. É uma imagem na qual, embora seja minha, não mais me reconheço. Não me pertence mais.

Contudo, continuo pensando na quantidade de almas penadas que vagam por aí. Tenho pena. Preocupo-me. E me reconheço nelas. São zumbis de ressentimento, ódio e desamor, ou seja, apoiam-se como náufragos nos destroços subjetivos que dão sentido a todo fundamentalismo. São os fantasmas daquilo que eu fora outrora. Fantasmas que eu felizmente consegui superar e transcender.

O que trago como ensinamento? Talvez nesses fantasmas não haja apenas ódio. Talvez haja neles algum impulso vital. Uma energia política que o puritanismo não consegue captar. A ortodoxia das ideologias nos impede de ver camadas psicopolíticas valiosas. Verdadeiras transvalorações que nossa moral puritana nega e demoniza. E, assim, puritana, negadora e denegadora, a esquerda infelizmente não consegue reverter essa potência libidinal revolucionária em seu benefício. Não consegue se valer das armas de seu inimigo.”

Por Rodrigo Petronio.

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