Nota #3 [18/02/2014]

  1. Sobre a relação entre indivíduo e coletivo

Conforme as Referências de 18/02/2014, a hipótese badiouiana sobre a relação entre indivíduo e coletivo estabelece que essas duas ordens consistem em múltiplos puros cujo único elemento é o vazio. O que isso significa? Primeiro esclarecimento: a relação entre indivíduo e coletivo pertence ao mesmo registro da questão sobre a relação entre evento e declaração, isto é, ao registro ontológico. Um aspecto fundamental da ontologia matemática, colocado nas Referências, é de que ela não envolve o tempo ainda que aborde operações sucessivas. Sendo assim, indivíduo/coletivo e evento/ declaração não configuram dois pontos completamente separados como o são os que marcam o ponteiro de um relógio.

Além desse aspecto, podemos também lembrar que a ontologia matemática em Badiou se refere à estrutura da situação. No Ser e Evento encontramos a sistematização dessa estrutura situacional formulada em termos meta-ontológicos, os quais conjugam conceitos filosóficos e teorias matemáticas. Mas podemos encontrar uma tradução  desse tratamento ontológico dado à estrutura da situação num texto de Badiou bem acessível cujos termos pertencem ao campo da filosofia moral e ética. Trata-se do livro de Badiou escrito para alunos do ensino secundário chamado Ética – um ensaio sobre a consciência do mal. Nele encontramos a seguinte passagem:

Se não há ética em geral, é porque falta o sujeito abstrato, aquele que deveria possuí-la.  Não há senão um animal particular, convocado pelas circunstâncias a se tornar sujeito. (BADIOU, 1995, p.53 – grifo nosso)

O que essa passagem nos esclarece sobre a relação entre indivíduo e coletivo? Que na estrutura ontológica da situação, composta por múltiplo de múltiplos indistintos, duas ordens se discernem: a ordem individual do animal particular e a ordem do coletivo composta por circunstâncias (históricas). Mas pertence também à estrutura ontológica da situação o vazio, isto é, o lugar a partir do qual eventos podem acontecer em ruptura com o discernimento situacional. Daí se segue que o evento consiste no processo de ruptura à situação pré-configurada e no processo de fidelidade a esse torna-se sujeito. As condições da ruptura são ontológicas, inerentes à própria situação: elas repousam no fato da situação consistir em múltiplo de múltiplos, cujo esquadrinhamento ideológico -animal humano particular (indivíduo) e circunstâncias históricas (coletivo) – é uma mera sobreposição a essa estrutura do múltiplo puro, e no fato de que o único elemento desse múltiplo puro é o vazio – lugar do evento.

Posto isso, para Badiou a relação entre indivíduo e coletivo requer primeiro uma ruptura com o que é dado na situação como pertencendo a essas duas ordens, por meio da declaração de um evento que torna essa separação indistinta, e em seguida requer o processo de fidelidade a esse evento. Nesse processo de fidelidade tudo o que ele é [sujeito como animal particular], seu corpo, suas capacidades, é em certo momento requisitado para que uma verdade faça o seu caminho. Então o animal humano é intimado a ser o imortal que não era (BADIOU, 1995, ps.53-54).

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