Nota #3 [18/06/2012]

A motivação para participar do Círculo de Estudos da Idéia e da Ideologia nasceu de algumas afinidades que atestei ao ler o projeto que o mesmo defende. Talvez aquela com a qual mais irrestritamente me conectei ao tomar contato este foi a da tentativa [a esta altura dos acontecimentos, infelizmente, ousada] de forjar um grupo de estudos referenciado política e ideologicamente, sob uma intenção partidária, que, no entanto, assume como compromisso [político e ideológico] não submeter a teoria à prática. Não submeter a primeira à segunda, pessoalmente, me parece o maior desafio que hoje constitui a efetividade da “hipótese comunista”. Até onde domino, por certa familiaridade no interior do debate [e não apenas naquilo que este produz para além de seus limites mais particulares], o que distingui o legado marxiano na longa história do socialismo é a conjugação entre teoria e práxis – de onde emana sua potência. Ou seja, a reciprocidade entre estas e não supressão de uma sob a outra. Reciprocidade que garantiu, por exemplo, que Marx tenha realizado uma crítica materialista à dialética hegeliana ao mesmo tempo em que impôs ao materialismo de Feuerbach uma crítica dialética – algo que por vezes, acredito, tenha se perdido sob o jargão da “ação pragmática”, da “urgência da organização revolucionária”, “das condições objetivas” etc. Exceder os limites conceituais do materialismo e esvaziar o conteúdo filosófico da dialética, ao menos em termos marxianos, é retirar a objetividade que esta tradição de pensamento objetiva.

Orientado por certa aproximação teórica com o legado marxiano bem como com aquele marxismo que dentro do marxismo penso ser o mais marxista, ainda que não exista um “marxômetro” [sic] para tal, e pela opção ideopolítica que há em mim, pessoalmente, me incomoda supor que existam poucos espaços como o CEII. Isto é, em que o pensamento possui seu espaço como tal e não como expressão ou subexpressão da militância; onde a consciência não é um epifenômeno da realidade e/ ou dela deslocada; onde a teoria não se supõe como legitimadora de práticas, mas como atividade que ultrapassa instrumentalismos; onde o sujeito mediante estudo, por definição, extrapola o objeto – mais do que estabelecer uma relação patológica ou circular, por assim, dizer com o mesmo. Igualmente me espanta que o estudo aos marxistas organizados não seja encarado, com firme propósito, como um processo coletivo tal qual a organização e militância política – partidária e/ ou não. Me constrange que tenhamos um propósito político concreto [fundar uma nova sociedade] tão total e universal com uma capacidade de abstração e de penetração intelectual tão estreita da realidade – assim como me chama atenção que alguém imagine que a penetração prática da ação humana no mundo seja similar a interação concreta de um macaco, pré-determinada, com seu ambiente [há um deve-ser que não é uma hipóstase, que é tão real quanto impalpável na relação do homem com a realidade].

Por estas coordenadas é que formulo o descompasso do pensamento marxista diante do mundo contemporâneo, digamos assim. A ausência deste em determinados debates, acredito, ser responsável pela incapacidade de nos reorganizamos coletivamente e de nos engajarmos como sujeitos nas tarefas em que acreditamos necessárias. Há uma lacuna da crítica orientada pelos referencias do “materialismo histórico” que foi preenchida pela inércia irracionalista do pensamento pós-moderno, que sedimentou o apagão crítico que nas últimas décadas temos vivenciado e efetivado a materialidade do capital em termos tão “caducos”. Acho que restituir a capacidade crítica é uma tarefa concreta da ordem do dia – ou, talvez, “inverter” a décima primeira tese sobre Feuerbach, que Marx formulou, admitindo que não conhecemos, pros fins que metamos, as conexões presentes deste mundo. Penso que, mais ou menos, neste “ponto”, o professor Leandro Konder esclarece melhor o que quero dizer:

“(…) Na medida em que os marxistas deixarem de efetuar estudos realmente esclarecedores quanto à alienação política, quanto à alienação religiosa, quanto à alienação nas artes etc., eles estarão contribuindo para que o conteúdo do conceito marxista de alienação fique limitado, no consenso geral, à alienação econômica. Estarão, portanto, se acumpliciando, na prática, com aqueles que procuram deliberadamente deformar a conceituação de Marx e se esforçam por reduzir a área de significação abrangida pelo conceito marxista de alienação, com o objetivo evidente de forçar uma refutação do marxismo nos termos em que poderia se comodamente refutado qualquer economicismo (…)” (KONDER, 2009, 45)

Destaco ainda que diante dos méritos contidos nos pressupostos do CEII há um de envergadura artística: pactuar disciplina e “ausência de pressa” [como descrito no item 4.6 – Tempo]. Introduzir com Lênin o princípio de ação partidária negando dogmas partidários como um fundamento da formação política de um militante político num partido formalmente instituído é uma tarefa titânica como necessária. Disso, creio, num nível significativo, dependerá a capacidade política de o PSOL ser portador do [ou daquele] projeto societário que seria portador – ou de qualquer organização que vise à superação do existente. Mas, acredito, ainda mais sobre uma organização formalmente instituída como o PSOL, no caso, que saber equacionar enquanto partido socialista o tempo de trabalho, paciente e determinado, com as determinações eleitorais e formais de ser um partido numa democracia liberal é uma tarefa complexa: exige não ser displicente com o processo eleitoral e formal da democracia posta nem complacente com esta e com a tarefa de por aquilo que não está posto [existente]; saber que o eleitor não é o sujeito político, por definição, ao mesmo tempo em que o sujeito político não pode, nos termos postos, ausentar-se da condição de eleitor.

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