NOTA #3 [20/05/2016] RJ II

Eu bem que queria escrever uma nota bacana sobre a nossa última reunião, falar sobre o tanto de reflexão que ela proporcionou, prolongar os debates que o camarada 283 levantou, dizer que é sempre muito bom quando a nossa reunião de fato acontece, falar sobre esse tal de Badiou que eu conheço tão pouco mas já considero pacas… mas não dá.

Então eu vou seguir na linha do camarada 293 e fazer uma nota de compartilhamento de angústia, pq não tá dando pra viver com essa notícia do estupro coletivo de ontem. Simplesmente não consigo pensar em outra coisa. E eu queria falar disso com vocês, pq vcs são meus camaradas, pq o CEII é o meu coletivo. Eu sei que o movimento feminista é cheio de problema, cheio de contradição. Acreditem, eu sei. Mas é que, no fundo, eu esperava que vocês demonstrassem para com os movimentos de mulheres a mesma paciência, compreensão e curiosidade que tem para entender os nós e contradições dos movimentos dos trabalhadores e da classe em si.

As mulheres são uma classe dentro da classe. Entender a questão feminina através desta lógica das “identidades de gênero”, no meu entender, é um erro. Mulheres são exploradas, primeiramente (e primordialmente), pela sua capacidade reprodutiva. A mulher é alienada de seu próprio corpo, é ele quem serve ao sistema. Daí se segue a divisão sexual do trabalho como desdobramento necessário do confinamento à esfera privada da vida. Então, criticar a forma de organização pela identidade é uma crítica que eu aceito como válida, criticar até mesmo essa defesa mais intransigente dos tais espaços exclusivos é outra coisa que eu também posso compreender, mas fazer apenas estas críticas e deixar de se dedicar a entender a condição das mulheres no capitalismo (e muito antes dele!) é corroborar o argumento daquelas que dizem que os homens levantam essas críticas ao movimento apenas por má fé, simplesmente para que estes debates não ocorram, pelo mal estar que ocasionam em espaços mistos.

Uma vez o camarada 023 disse que Badiou defendia que todos deveriam participar dos debates sobre negros, mulheres, lgbt e etc, que não deveria ser algo segmentado. Refleti muito sobre isso e concordei, afinal são problemas de todas as pessoas. Então, eu ficaria feliz se a gente pudesse falar mais sobre mulheres, sobre patriarcado e sobre como os efeitos dessa situação concreta se manifestam em um coletivo que, nesse momento, praticamente não possui mulheres frequentando presencialmente no Rio. Uma pergunta que eu sempre me faço é se existe algo em matéria de forma de organização que pudesse dar conta disso, mas sempre que penso nisso só me ocorrem respostas “pós modernas”… enfim, seria interessante ouvir dos camaradas com mais tempo de CEII que eu.

 

 

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