Nota #3 [21/05/2013]

Há uma distinção importante, segundo Zizek, entre a “crença” e a “fidelidade”. Ambas, comumente, tratadas como equivalentes, tendem a ser tratadas como momentos de alienação – da experiência da perda de algo substancial. Ao mesmo tempo, esta perda, esta alienação, isto que não se tem mais, como que emoldurada da crítica da religião, se refere [tendencialmente também] a “estados da consciência”.

Me parece que Zizek insiste que [1] esta questão, como toda questão que se refera a alienação, se pensada tanto em termos lacanianos ou marxianos, precisa ser encarada do ponto de vista da prática e [2] a equivalência conceitual entre “crença” e “fidelidade” perde o que cada uma tem em si e, portanto, aquilo que a diferencia uma da outra, sendo o resultado desta indevida equivalência, acredito, a criação de condições que ao fim [tendem] a inviabilizar a práxis política – que, entre outros critérios, tem na organização um aspecto central.

Zizek procura esclarecer que o “registro da crença” é posto por formas de mediação [social] onde o crente crê por meio da crença que a alguém que crê: acreditamos que outros acreditam, logo, assim, todos [na prática] acreditam. Bem, toda autoridade hoje é autoridade não porque acreditamos que ela, por seus próprios atributos, deve ser tratada como autoridade, mas pensamos que outros a pensam assim, isto é, “como autoridade” – ninguém, por exemplo, pessoalmente acredita que as eleições são limpas, mas em nível prático todos se comportam como se acreditassem mesmo que, quando perguntado, alegue que apenas os ingênuos acreditem nela e faz aquilo [vota] sem crer. A fidelidade, por sua vez, se refere a um registro em que o crente confere obediência a algo sem mediação de natureza alguma, apenas tomando como critério de envolvimento a verdade como tal.

Diria, pelo que entendi, que a , por exemplo, tem haver com fidelidade ao passo que pode haver crença sem fé. A fé se refere a um pacto simbólico entre os que o pactuam e, portanto, estão engajados uns com os outros. A crença pode ser desenvolvida sob a ideia de que não há nada que justifique minha crença objetivamente, salvo o fato de que existem aqueles que acreditam – ou seja, posso supor um “vazio” que é preenchido por homens que [julgo] “creem de verdade”, e a partir da consciência da simulação da existência de algo, feita por homens que não tem esta consciência, agir como se houvesse algo de verdade. De certa forma, acredito, a fidelidade não problematiza a existência de algo que valide ou invalide a crença/ obediência: o engajamento produz o critério da validade.

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