Nota #3 [22/10/2013]

A ontologia entre Heidegger e Badiou

1. Ontologia regional e ontologia fundamental, ser e existir (ser-aí, Dasein). Matemática. Há situações e situações. Dizer com Heidegger que uma ontologia regional está subordinada a uma ontologia fundamental não é o mesmo que dizer que o ser sempre se dá em um mundo e como um mundo. Se quisermos chamar a ontologia regional de “situação”, esta será o setor de uma teoria produzida pelo comportamento teórico do existir, ou este comportamento teórico mesmo. A matemática seria, a princípio, uma região do comportamento teórico em relação ao ente – assim como, aliás, a arte, a poesia.

(Mas não me parece ser esse, a oposição ontologia regional X ontologia fundamental, o ponto fundamental de uma crítica heideggeriana a Badiou. Primeiro, porque a questão do tempo como sentido do ser me parece ser a chave. Segundo, e mais importante, porque (e acho que isso não ficou claro na outra nota) a equação ontologia fundamental=ontologia mais geral nã parece valer para Heidegger:   Terceiro, e mais importante ainda, porque o Heidegger de Ser e Tempo não parece conceder espaço privilegiado a nenhuma das condições da filosofia, para usar os termos do Badiou. Se isso acontece, será mais tarde, depois que noção de Ereignis vier para o centro do palco do pensamento de Heidegger. Isso significa: depois que o termo que, traduzido no francês événement, será (um)a palavra fundamental de Badiou. Não será essa “virada” heideggeriana para o acontecimento do ser (por outra perspectiva, já presente em Ser e Tempo) o que permite à filosofia buscar a(s) verdade(s) fora de si – Heidegger na arte, Badiou nas quatro condições (ou, de uma maneira ainda por explicar, sobretudo na matemática)?)

Em relação a isso, a ontologia fundamental será não uma teoria ou um comportamento específico, mas o existir (Dasein) desde a possibilidade radical de pôr a si e ao ente na totalidade em questão. A “situação” é aqui literalmente levada aos seus limites: isto é, àquilo que a delimita enquanto tal e no qual ela se mostra como algo limitado, justo por ser “apenas” uma possibilidade do ser do existir. Se agora chamarmos “mundo” de “situação”, este terá que ser compreendido como o todo a cada vez (possivelmente) diverso (no tempo) das situações em que o ser-no-mundo, o existir, pode vir a ser o que é (dentre elas aquelas situações teóricas (as ontologias regionais) descritas mais acima, mas não só elas, por mais que possam ser situações privilegiadas). Aqui não se trata apenas de teoria, mas do existir ser a decisão mesma de colocar a si como um todo em questão (ser (tomado pel)a decisão, e não apenas “tomar” a decisão: por isso destino e decisão são indiscerníveis nesse ponto). Daí:

2. O esvaziamento, a exclusão do ser humano e do sujeito da ontologia. Pois o “si” em questão é radicalmente nada – a angústia não é senão a possibilidade de experimentar o mundo como pura possibilidade do existir e, a um tempo, como o sem sentido da totalidade dos entes: o “não ser” do ente que somos (o seu ser sempre por ser) e a diferença do ser em relação ao ente, respectivamente. Por outra, o ser do existir é pura relação ao ser: nesse caso, o homem some, o sujeito não poderia ser posto mais fora da ontologia. Como Heidegger insistiu (a meu ver, com razão) na Carta sobre o Humanismo: ao contrário do existencialismo, para quem estamos em um plano onde existe só o homem – para Heidegger, estamos em um plano em que é tão só o ser.

Se há um sujeito aí, este o é não no sentido de ser sujeito de: o sujeito “moderno” que, com seu querer desmesurado de controle e (auto)asseguramento, determina tudo o mais como mero objeto dele – o que faz com que o mundo seja, no limite, tão só “produção subjetiva”. Se há um sujeito aí, ele é antes um sujeito a: um sujeito que se determina em seu ser por uma pura relação ao Ser, e não a nenhum ente – e, por conseguinte, com muito mais razão, não em relação a um objeto. Não seria isso (muito próximo do) que Badiou “quer” na sua teoria do sujeito?

Se, por outro lado, “o que é da ordem do ser só se torna legível em um processo subjetivo” (afirmação/questão da camarada J.B. acerca de Badiou, na última reunião, se não ouvi mal), temos o outro lado da tese de Heidegger sobre o ser: é no existir que o ser se manifesta em sua verdade, que vem ao descobrimento, que se dá como sentido de uma época, no horizonte do qual se dá o todo dos entes e, vinculadas a este, as possibilidades do existir.

Mas em Badiou, o que se dá na encruzilhada entre ser, sujeito e acontecimento? Em Heidegger, o sujeito se sujeita no acontecimento do ser, e nisso o ser se faz verdade, sentido – dá-se mundo (“situação”). Em Badiou, ao que parece, o sujeito se sujeita na fidelidade a um acontecimento que é separado da ordem do ser, mas em todo caso vinculado a esta (ao menos por esse traço negativo). Todavia, seria apenas nesse sentido “negativo” que se dá o vínculo aqui? Se entendi bem o que foi dito na reunião, é preciso inserir aqui, ao menos como uma das maneiras de encaminhar a questão, a função política do reconhecimento da matemática como a ontologia. Antes, porém, a ontologia fundamental, ou o ser fundamental da ontologia:

3.Ganhar o múltiplo, perder o sentido. A ontologia é ((d)o) acontecimento: ao menos, assim me parece, para Heidegger – ou para o Heidegger da “reviravolta”. O que acontece é justamente a verdade do ser, que sempre se dá na finitude de uma possibilidade histórica singular do existir (uma época, uma pessoa, no limite: uma conversa). Mas o ser mesmo se dá recuando: ele doa múltiplos sentidos, mas no processo histórico mesmo de doar, se recolhe como “aquele” que doa. O seu desvelamento em sentido não é seu velamento como outro sentido (apenas), mas seu velamento enquanto o dar-se de sentido (e mais nada). O enigmático é esse dar-se (múltiplo) de sentido, e não esse ou aquele sentido. Aí está a “singularidade” do ser. A compreensão mesma (o lógos, a linguagem), como estrutura do existir, acontece porque dá-se sentido, mas o incompreensível mesmo é esse dar-se que delimita e possibilita a compreensão. Nas palavras de Ser e Tempo, “o sentido nunca é tema da compreensão” (esse me parece ser o sentido do “impensável de todo pensamento”, tema caro a Heidegger). O ser em suas múltiplas faces (e máscaras) reveladas é, “como tal”, o que escapa ao sentido – não “sendo” assim nem uno, nem múltiplo. Pois mesmo a narrativa que vê na história a unidade sob os múltiplos sentidos do ser, capitula, em Heidegger, à história mesma: ela mesma (bem como o que faço agora) é um sentidos, que para ela mesma não pode ser tema, e que se dá entre múltiplos sentidos. (Aliás, essa história me lembra a passagem de uma figura da consciência a outra em Hegel, como o processo em que a verdade (o sentido) escapa o saber (a compreensão)).

Ora, justo por ser o quem de uma época em que se dá tal descrição, Heidegger vê tal época como a que carece de uma medida (de um sentido) dado pelo ser – ou em que o sentido é justo (pensar) o sem sentido de um dar-se de sentido. Heidegger o pensa como o impensável e o poema é o seu signo privilegiado. Mas não será justamente por que junta sentido e pensamento? Não seria justamente na lacuna entre um e outro que podemos inserir a matemática como ontologia?

Nesse sentido (!!!), o gesto de Badiou seria o da inscrição do impensável incompreensível do ser de Heidegger (doador de pensamento e sentido) no pensamento sem sentido da matemática. “Sem sentido” justo porque este escreve aquilo que não pode ser dito na linguagem em que estruturamos nosso existir, no compreender em que sempre já moramos – podendo ser, no limite, indicado por este. Em ambos os casos, o ser seria justamente subtraído ao mundo, à situação. Em ambos os acasos, o ser teria uma íntima relação com a multiplicidade. Em ambos os casos, o ser escapa do que pode ser pensado como filosofia, podendo ser apenas indicado como outro que esta. Mas se em Heidegger o múltiplo é um múltiplo de sentidos e é um que dá-se, acontece (e dizê-lo é a ontologia possível (à nossa época, ao menos)), em Badiou o ser se recolhe tão só ao múltiplo (e só com esse movimento parece poder estar na matemática), separando-se de sentido (situação) e acontecimento.

5. Se Badiou diz “o acontecimento não é, ele acontece”, Heidegger diz “o ser não é, (só) o ser acontece”.

7. Fenomenologia e sistema. A ontologia de Heidegger não se constitui em sistema porque essa é fenomenológica e a fenomenologia é uma descrição que visa mostrar o fenômeno do ser e, assim, porta em si e requisita, para ser compreendida, em última instância, a indicação formal para uma transformação do “animal racional” em existir (Dasein). Descrição se opõe aqui a dedução e dedução é o procedimento pelo qual se faz um sistema: parte-se de um ou mais princípios e, por dedução, um todo de proposições deste decorrentes constitui o sistema.

Mas se o sistema não é “uma figura enciclopédica, ela própria dotada de uma chave-mestra ou ordenada por algum significante supremo”, mas “entendermos por ‘sistematicidade’, como devemos fazê-lo, o requisito de uma configuração completa das quatro condições genéricas da filosofia” (Badiou, Manifesto pela filosofia, p. 32-33), então nada impede que o pensamento de Heidegger seja também sistêmico. Ciência (e não apenas enquanto absorvida pela técnica) e poesia estão claramente pensados aí em sua compossibilidade (como perspectivas da aletheia), bem como, para o mal ou para o mal (sic), a (invenção na) política na época do reitorado – e, de certa maneira, para o mal e para o bem, também na Carta sobre o Humanismo, no conceito de apatridade (Heimatlosigkeit), que Heidegger aproxima explicitamente da noção de “estranhamento/alienação” (Entfremdung) em Marx. Para o amor temos as cartas com Hannah Arendt – e, não de Heidegger, mas no horizonte do pensamento deste, um ensaio de Agamben…

11. Identidade e diferença. Todo e cada. Se a generalidade do ser é trazida à baila por Badiou para colocar em cena a política como o campo do maximamente universal e comum, não diria sem pensar que essa máxima generalidade é o que caracteriza o ser em Heidegger. No primeiro parágrafo de Ser e Tempo está dito ao menos que a peculiaridade do ser não está no fato de que ele é o conceito mais geral. O ser é transcendens, não a categoria mais geral de todos. Por outra: que o ser “seja” (ou aconteça) enquanto o mais fundamental, ou como o fundamento mesmo, não implica que ele seja o mais universal.

Eu tenderia a dizer, partindo de Heidegger, mas talvez indo além dele, que o caráter transcendente do ser se configura como a máxima identidade e a máxima diferença conjugadas. Ele está além da categoria mais geral e aquém do ente mais singular. Talvez ele seja justo o liame entre universal e singular – não a mediação que vai de um a outro por um processo, mas a imediata indiscernibilidade que se dá a cada vez entre o universal e o singular, e da qual a filosofia é (um) testemunho (o filósofo como o singular que diz a cada vez o todo).

13. Política da singularidade. Do ponto de vista político, isso me parece dizer o seguinte (sempre de Heidegger, mas para além deste): o mais comum é a singularidade e é com um mundo que se “ordenado” de e para isso que se arregimenta a luta da esquerda. É com tal singularidade que esta luta se compromete. A singularidade é temporalmente sempre futura: sempre está por determinar, por vir – é, pois, aberta, sujeita ao acontecer, e uma política que a professa é fiel a isso. Não vejo senão a democracia radical (social, econômica e politicamente) como o (não-)lugar (utópico) em que semelhante singularidade pode ter seu espaço próprio.

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