Nota #3 [28/09/2012]

A ideia de voltar ao começo para seguir em frente me parece, no momento, aquilo que mais coerentemente poderia ser chamado de “radical”. No jargão da esquerda, “radical” é presente constante. Em Marx, lembro, em Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução: “Ser radical é agarrar as coisas pela raiz” [pg.151].

Penso que a sugestão de Marx é nos ocuparmos do fundamento daquilo que queremos nos ocupar e não, ao contrário, reagir histriónicamente quando de frente ao objeto. Sob qualquer condição que seja, pois, mesmo que o objeto seja o resultado de um fracasso a radicalidade exigida para apreendê-lo permanece a mesma – já que a resposta do fracasso ainda está no fundamento que consiste o homem. Desse modo, não recomeçar de onde se parou é aquilo que de mais firme uma práxis política revolucionária [se for o caso] pode fazer hoje.

Zizek refuta a repactuação do comunismo [da hipótese comunista] hoje sob um imperativo ético, por assim dizer – no qual devemos tê-lo como um princípio para não desvanecermos na miséria deste mundo. Se assim o for, por definição, devemos ter o comunismo como expressão da necessidade da existência de um mundo miserável. Isto é, como “ideia reguladora” o comunismo é estipulado pelas disparidades da ordem social. Não havendo, portanto, a necessária superação entre o comunismo e o existente deste mundo que garanta a ele uma autonomia diante da realidade – ou a capacidade de apresentar-se como uma realidade autônoma [superior] frente a sociedade burguesa. Em suma, se comunismo é o “socialismo ético” para existir como tal deve então persistir aquilo que exige sua existência nestes termos [a desigualdade, a xenofobia, o racismo etc]. Como diz Zizek:

“Si concebimos el comunismo como una ‘Idea eterna’, estamos suponiendo que la situación que lo genera no es menos eterna” [p.233]

Na leitura das primeiras páginas da fala do filósofo na conferência sobre “A hipótese comunista”, nomeada em espanhol como “Cómo volver a empezar… desde el principio”, a reflexão sobre “antagonismo social” que Zizek faz toma “quatro antagonismos” que seriam hoje “suficientemente intensos para impedir su reprodución indefinida” [p.234]. Aqui, sem entrar no mérito, daqueles que o autor elenca, penso haver uma reflexão importante da qual a esquerda, em algum nível fundamental, deixou de se ater em sua tarefa política: o real caráter do “antagonismo” na determinação histórica do capitalismo – este é a porta de saída do capital, mas é também, antes de tudo, sua porta de entrada. Comumente tendemos a apostar as fichas da luta emancipatória em categorias que, quando muito, representam uma negativa a ordem estabelecida, mas que não constituem uma projeção possível de outra ordem. Estar menos atento a necessidade de certas contradições para manutenção do posto, pode significar investir numa “negação determinada” – conceito hegeliano que, ao meu ver, são capazes de dar conta de problemas que todo o “materialismo marxista” hoje não resolve. Ou seja, me parece, que em Hegel é possível cavar mais materialismo que no materialismo “espontâneo” de certo marxismo.

“(…) construir a noção de negação determinada exatamente como dispositivo de crítica à idéia de que as oposições dão conta da estruturação integral das relações. Pois a oposição pode admitir que só é possível pôr um termo através da pressuposição da realidade do seu oposto, que aparece aqui como limite de significação (…)” [SAFATLE, p.131 – extraído de “Linguagem e negação: sobre as relações entre pragmática e ontologia em Hegel”]

Se bem entendi, me parece possível supor que é fundamentalmente neste nível de tensão que a esquerda tem tendido a operar. Algo que, aliás, o próprio marxismo já procurou dar conta. Carlos Nelson Coutinho, em Gramsci sobre os “Conselhos de Fábrica” e os “sindicatos”, rememora:

“(…) Os Conselhos de Fábrica não são mais concebidos como instrumentos de defesa dos direitos imediatos do trabalhador, mas como meio de elevar o operário de sua condição de assalariado à condição de produtor. E nisso eles se distinguem fundamentalmente dos sindicatos de categoria (…)” [2007, p.31]

Acho, se bem entendi, que aqui, por exemplo, temos uma boa reflexão em Gramsci de algo que Hegel nos legou, mas que certa cultura marxista privou-se de dominar por refutar a máxima expressão da filosofia alemã por ser aquela concepção de mundo que exigia ser invertida.

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