Nota #3 [21/03/2013]

A crítica da ideologia tradicional baseia-se na denúncia dos interesses particulares que se disfarçam sob a máscara de “nobres intenções” universais. Assim, por detrás da postulação “cínica” da ideologia da liberdade, igualdade e fraternidade, deveríamos reconhecer e denunciar a dominação de uma classe social por outra, etc. No entanto, em seu livro “Crítica da razão cínica”, Peter Sloterdjk aponta para o fato de que hoje o “cinismo” assume um caráter bem diverso, na medida em que os interesses espúrios são contabilizados no próprio texto explícito da ideologia, o que termina por neutralizar de saída qualquer efetividade por parte da crítica tradicional. Para Zizek, o desenho animado Shrek é um bom exemplo dessa nova “razão cínica”. Através de uma série de deslocamentos metalingüísticos (anacronismos, metamorfoses inesperadas, etc) ele se apresenta como uma visão irônica dos contos de fada, de potencial supostamente subversivo (basta mencionar que o papel do “príncipe” é desempenhado por um Ogro). Contudo, na realidade efetiva, seu efeito é bem outro: o de que perseveremos a nos divertir com princesas e príncipes, fadas e bruxas, de modo a nos impedir de nos contar a nós próprios outras estórias. A contemporânea “razão cínica” exige pois uma reformulação da forma de crítica à ideologia, que neste caso não pode ser tomada como falsa consciência, já que hoje todo mundo sabe muito bem o que faz, muito embora continue fazendo mesmo assim.

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