NOTA #4 [05/12/2017] (RJ I)

“Aqueles que não tem nada, tem somente sua disciplina.” – Aparentemente, não só disciplina. Têm também, apesar de sua despossessão, desejo. E esse desejo, parece, raras vezes não é refratário à mesma disciplina com a qual poderia contar para pôr algo em movimento. Isso me parece um problema, principalmente para a organização e a execução de tarefas em um coletivo.

Foi comentado na última reunião que já houve situações em que foram sugeridos projetos para o coletivo e, posteriormente, a mesma pessoa que os sugeriu, ou aquela que deu início a eles, desistiu no meio do caminho, deixando para outro a tarefa de tocar a coisa pra frente. Outras situações ainda em que o entusiasmo inicial com relação a algum plano – presente então apenas como ideia – foi substituído pelo desânimo no processo de trazê-lo à efetividade, com o consequente desengajamento e indisposição para realizá-lo, quando não o abandono da tarefa. Desejo e disciplina parecem dois campos apartados um do outro. Esta somente erigindo suas construções quando subordinando aquele a coerções, supressões, silenciamentos, renúncias.

A dúvida que quero colocar aqui é se a desejo e a disciplina necessariamente giram em sentidos opostos ou se elas podem de algum modo confluir, comunicar, conciliar-se.

A oficina acadêmica parece ter mobilizado um grande número de militantes em sua consecução por ter justamente tornado secundária a questão do desejo: ela põe em jogo também a necessidade, remunerando o engajamento (se não posso contar com seu desejo por engajar-se, por quaisquer motivos que sejam, em um último esforço, eu pago – ou, como as coisas estão no momento, posso vir a pagar – pelo seu engajamento). Mas essa feliz coincidência entre desejo de engajamento e remuneração para que esse desejo se torne indiferente (se porventura ele mudar de direção) não ocorre – ou não ocorreu, pelo que percebi, pelo menos, – na maioria dos projetos do CEII; na verdade, não recordo de ter ocorrido em nenhum outro. (o curso EAD consistiria uma exceção parcial, gerando receita apenas para o coletivo CEII, e não para seus membros em particular). Da oficina acadêmica, portanto, não creio poder ser tirada uma lei geral para manutenção do engajamento.

Trazer uma ideia à vida dá trabalho. Trabalho pode também ser um nome do processo de conformar nossa vontade à intenção de fazer algo concretamente existir no mundo. Essa conformação se efetiva também pela necessidade (talvez principalmente por ela); necessidade de reprodução material da vida. Por sua vez, essa necessidade na maioria das vezes se atende mediada pelo dinheiro. No CEII, porém, parece que a necessidade não está muito em jogo: engaja-se por desejo. Minha questão seria então: se não a necessidade – em sua relação com o dinheiro -, já que ela não está sempre presente em nossos projetos, que outro meio poderia subordinar nosso desejo à disciplina necessária à execução das tarefas no coletivo? Ou, melhor ainda, a pergunta que eu quero realmente fazer: sem subordinação, há um meio de pôr para andar no caminho tortuoso da disciplina o desejo?

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