Nota #4 [09/07/2013]

Quando Lacan afirma que a fantasia é o esteio da realidade, não devemos interpretá-lo como um realista ingênuo. A realidade também não deve ser tomada como uma ilusão ou um sonho. Ao contrário, a tese lacaniana é a de que existe algo que não pode ser reduzido a uma ilusão. O Real lacaniano não é a realidade em que vivemos (é isto que o diferencia entre Lacan e o realismo simplista), mas sim aquilo que estrutura a própria realidade, o núcleo sólido que não é uma ilusão. Por exemplo, é no sonho que estamos mais próximos do Real, e não vivendo o nosso cotidiano e estando cientes do que é realidade e o que é ilusório. É somente no sonho que nos aproximamos da fantasia que estrutura nossa realidade.

O caso do antissemitismo demonstra de maneira clara o Real como fantasia que estrutura a própria realidade. Obviamente a visão que os nazistas tinham do judeu não correspondia plenamente ao judeu do dia-a-dia que os alemães estavam acostumados a conviver. No entanto, isso nada afeta o antissemitismo. Um nazista poderia muito bem reconhecer que um judeu poderia ser um bom pai e um bom cidadão e ainda assim permanecer antissemita. A realidade do realismo ingênuo não é suficiente para explicar o caso. Para tanto, precisamos recorrer à tese lacaniana da fantasia como esteio da realidade, pois é ela que estrutura a realidade social, mascarando as falhas do próprio sistema e suas inconsistências. O Real é aquilo que determina nossa experiência cotidiana da própria realidade.

Uma ideia sobre “Nota #4 [09/07/2013]

  1. Não é muito clara para mim (em sendo Lacan, para muitos isso não surpreenderia, rs) essa passagem do Real como “núcleo sólido que não é ilusão” e o Real “como fantasia que estrutura a própria realidade”. Tanto quanto posso ver, essa passagem está justamente na ideia de que o Real “estrutura a realidade” e no fato de que realidade (social, empírica, etc.) é isso em que vivemos cotidianamente. Nesse sentido, na medida em que a realidade social é estruturada enquanto fantasia, ou seja, na medida em que se opera socialmente a partir de certas compreensões dos outros e das coisas que não necessariamente “se confirmam empiricamente” e que funcionam independente do que eu sei/declaro saber (o cara que continuo antissemita mesmo conhecendo boas pessoas que são judias, etc.).

    Mas se esse quadro faz sentido, algumas perguntas poderiam surgir. Uma delas é: seria melhor falar em realidades (social, empírica (do realismo ingênuo?), etc.) do que em realidade, no singular, não? Ou simplesmente “destituiríamos”, por assim dizer, via Lacan, “o direito” de o realista ingênuo falar de realidade? Não seria mais interessante pensar como o Real estrutura essa realidade também?

    Suposto que o Real estrutura realidades, uma outra questão é: como manter a ideia de que ele é um núcleo sólido sem recair em uma (na) metafísica (,) que distingue o ser(ente)/coisa em si (o Real) das aparências/aparições/fenômenos (as realidades)? Suposto que precisemos evitar compreender Lacan como metafísico nesse sentido bem geral…

    Por outro lado, se abrirmos mão da ideia de um núcleo duro, o risco é cair em um mundo de “meras” aparências (as múltiplas realidades), onde vale tudo, onde tudo é interpretação, e mesmo tudo é relativo etc. – enfim, nessa coisa que muitas vezes soa frouxa e preguiçosa e que costuma receber o nome de pós-modernidade.

    A saída talvez seja pensar no Real como lacuna, no sentido da “Visão em Paralaxe” do Zizek. Talvez por aí, nas mãos de um hegeliano, se complete a “história de um erro” contada por Nietzsche no Crepúsculo do Ídolos; esta, que tem por título “Como o mundo verdadeiro acabou por se tornar uma fábula”, se encerra justamente com a ideia de que com o fim do mundo verdadeiro (o ser (entificado), a coisa em si) também o mundo aparente desaparece…

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