Nota #4 [10/12/2012]

Marx inventor do sintoma

A crítica da ideologia de Marx se baseia na detecção de um ponto paradoxal que é heterogêneo ao campo ideológico mas ao mesmo tempo necessário para que esse campo venha se constituir. Nesse sentido, pode se dizer que a exceção é que funda a universalidade. Por exemplo, a liberdade formal de vender a força de trabalho, numa troca que fundamenta o sistema capitalista liberal, é a negação mesma da liberdade, na medida em que o trabalhador fica atrelado à lógica do mercado. Outro exemplo, a troca justa suporia que o trabalhador recebesse a quantia equivalente à sua força de trabalho, sendo escamoteado que esta mercadoria (a FT) tem algo de particular por ser uma mercadoria que produz mais valor, mais valia que é apropriada pelo capitalista. É como trocar a galinha dos ovos de ouro pelos ovos produzidos pela galinha. Como se percebe, há uma clara assimetria aí.

“Zizek :“O desenvolvimento quantitativo, a universalização da produção das mercadorias produz uma nova qualidade, que leva ao aparecimento de uma nova mercadoria que funciona como a negação interna do princípio universal da troca equivalente das mercadorias.”

Nesse sentido, a utopia do socialismo pequeno-burguês consistiria em sonhar com uma universalidade sem sintoma. Isso é ideologia pura. Não há como compatibilizar a produção para o mercado e a propriedade coletiva dos meios de produção.

A crítica à totalidade racional de Hegel por Marx se baseia na detecção de um elemento paradoxal do conjunto social – o proletário – que funciona segundo ele como “a não razão da razão.”

Para Lacan, é precisamente na passagem do feudalismo ao capitalismo que podemos apreender mais adequadamente a tese de Marx como inventor do sintoma.

O caráter fetichista da mercadoria

Um efeito de estrutura aparece como propriedade pertencente a um objeto como seu valor “intrínseco”, isto é, fora de sua relação com outros elementos.

Marx: “Dá-se com o homem o mesmo que com a mercadoria. É somente  em relação com outro homem que cada homem se relaciona consigo.”

Para Lacan igualmente, (Vide Estádio do espelho) é só através do espelhamento num outro homem que o Eu pode atingir sua verdadeira unidade, sua própria identidade. O rei só é rei porque os súditos se comportam como se ele assim o fosse, muito embora do ponto de vista imaginário supõe-se que ele obedecido por que é rei, como se tal estatuto dissesse respeito à coisa em si, fora das relações sociais que o constituem como tal.

Zizek: No capitalismo, o fetichismo se DESLOCOU das relações interpessoais para as relações entre as coisas. Com o estabelecimento da sociedade burguesa, as relações de dominação e servidão foram recalcadas: aparentemente, pela forma, lidamos com a relação entre sujeitos livres, libertos de qualquer fetichismo em suas relações interpessoais; a verdade recalcada – a persistência da dominação e servidão – irrompe num sintoma que subverte a aparência ideológica da igualdade, liberdade, etc.  (…) Esse sintoma em que surge a verdade das relações sociais são precisamente as relações sociais das coisas.”

A histeria conversiva própria do capitalismo reside nessa dissimulação das relações pessoais em relações entre coisas. O sujeito contemporâneo “emancipado”,livre de preconceito, que age como um sujeito racional/utilitário delega a crença às próprias coisas. Como diz Zizek, “sua crença se encarna, se materializa na “relação material entre as coisas”, como as rodas de oração no Tibete, que rezam por nós, enquanto podemos nos abandonar aos devaneios mais sujos.”

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