NOTA #4 [12/02/2015] (SP)

“Quando Lacan diz que o derradeiro esteio do que chamamos “realidade” é a fantasia, isso decididamente não deve ser entendido no sentido de que “a vida é apenas um sonho”, ou “o que chamamos de realidade é somente uma ilusão”

Umas das questões centrais para Hegel é o problema da realidade, na relação entre aparência e essência. Ao contrário de uma metafisica moderna, a proposta hegeliana caminha na seguinte direção: a realidade não pode ser oposta à aparência. Desse modo, não é que há uma ilusão sobre “minha perspectiva” e a realidade em si, mas que a ilusão acontece no interior da própria realidade. Tanto a realidade quanto a aparência emergem de dentro da própria realidade, sob o efeito de uma duplicação. O mundo cria imagens de si mesmo por nossa atividade de criar imagens do mundo. As imagens do mundo não são cópias de uma realidade que tem existência por si, e é disso que se trata a questão do sonho para Lacan. Não é que exista uma distinção entre realidade em si e o fenômeno que acontece como se fosse uma realidade paralela, através de imagens oníricas. O problema do sonho é que ele guarda, justamente, o núcleo de sustentação do Real: a impossibilidade de se ater com o vazio, e é disso que se trata a divisão subjetiva. A impossibilidade humana é que sempre o processo de subjetivação se apresenta ou enquanto excesso ou enquanto falta. O sonho, então, persiste enquanto um núcleo sólido que não se submete ao jogo universal de representações, e é através dele que há uma aproximação em relação à fantasia que determina nosso modo de desejar.

Essa premissa é fundamental para o problema da ideologia. Não é que uma confrontação consciente da ilusão que encobre a realidade em si permite que a ideologia seja dissolvida, mas ao contrário: o único modo de nos confrontarmos com o sonho ideológico é pela aproximação do Real do desejo, que aparece sob a forma de sonho. Todo sonho ideológico acontece na aproximação sem interrupção entre ele e a realidade, ou seja, como se o argumento para o fim do jogo ideológico fosse a confrontação com a experiência cotidiana, como se dissesse: “olhe a realidade, o dia-a-dia, como essas pessoas não condizem com os discursos que fazem sobre elas, e você mudará de ideia”. O que acontece é que o modo o outro é representado no discurso ideológico já parte de uma posição anterior, sendo a experiência cotidiana já antecipada pela fantasia.

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