NOTA #4 [14/01/2016] (SP)

“A grandeza de Freud, tal como a de todos os pensadores burgueses radicais, consiste em que ele deixa tais contradições irresolvidas e recusa pretensão a uma harmonia sistemática onde a própria coisa encontra-se cindida em si mesma. Ele torna evidente o caráter antagênico da realidade social, até onde é possível à sua teoria e à sua praxis no interior de uma divisão de trabalho predeterminada. A incerteza da própria finalidade da adaptação, a desrazação da ação racional, que a psicanálise revela, refletem algo da desrazão objetiva. Elas se tornam uma denúncia da civilização” (ADORNO, 2015, pp. 68-9).
De um pensador burgues radical, para outro. Adorno consegue perceber em Freud o que é marcante enquanto um de seus pontos cegos, mas o próprio também não localizou grande parte de sua própria incongruência. Enquanto os terrores da USSR estava ocorrendo, nenhuma palavra fora proclamada por parte deste. Nenhuma obra tomou sua atenção aos eventos da união soviética, apenas um sintomático silêncio, postura completamente distinta deste que por tantas vezes problematizou, denunciou, criticou e desmantelou o nazismo. Esse movimento não é sem problemas, há algo na esquerda de não conseguir lidar com algumas questões e alguns de seus pontos cegos. Este é um caso típico desta situação. Não por um movimento de silenciar por apontar suas intenções diante dos eventos, é simplesmente um silêncio destes que ao se horrorizarem, apenas sente o frio em suas espinhas, mas as palavras faltam. Pois bem, quando Adorno se cala, nós que não consentimos aprendemos. O que podemos aprender com o silêncio de Adorno? Bem, algumas coisas, a primeira e mais importante é sempre tentar fazer valer o trabalho “Ghostbusters” que é a nossa caça aos fantasmas, que poderiam realmente colocar em questão ou apenas, permitir que algo seja dito em relação aos eventos dos quais a própria esquerda sente tanta dificuldade em falar. Mas gerar este espaço não garante que o movimento de re-significação simbólica consiga se fazer – a auto-crítica por si só não garante que se dissolvam as questões sintomáticas do autoritarismo ou das paixões. Há sim um trabalho à ser feito. Este trabalho para além do espaço produzido para que se possa se versar sobre estes fantasmas, é justamente o mitigar lendo da organização, que já ciente dos riscos do autoritarismo – não tem medo de que ao juntarem mais de 4 pessoas – já há um proto-stalinismo prestes a se desencadear. Entretanto, esse movimento não se dá por ingenuidade em pensar que isto nunca irá acontecer, mas por se saber que isto já acontece ou que acontece o tempo todo. Não se trata aqui de um risco por marcar o fingimento de que todos são iguais, mas por não se enganar acreditando nisto. Não somos todos iguais. O ponto é trabalhar com que essas diferenças não congelem o caminho em nome daquilo que é comum: justamente pois, como nos coloca Badiou, se faz necessário dar uma sólida existência subjetiva à hipótese comunista (Badiou, 2012). Justamente nessa experimentação dos fragmentos de verdades (locais e singulares) e universalmente transmissíveis, encontramos os meios de garantir a nova existência da hipótese comunista, da Ideia comunista, nas consciências individuais. É o que está justamente se desenhando como os desafios da subjetivação atual e, uma aposta é justamente na possibilidade de tratarmos as diferenças e os pontos cegos, como questões de análise que precisam ser dissolvidas coletivamente uma vez que são gerados exatamente desta maneira.

ADORNO, T.W. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo. Unesp, 2015.
BADIOU, Alain. A hipotese comunista. São Paulo, Boitempo. 2012

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