Nota #4 [14/03/2013]

A formação sintomática em Marx
Ou
Melhor continuar sonhando do que despertar

A linha argumentativa de Zizek acerca da ideologia tem como ponto de partida a formulação lacaniana de que Marx inventou o sintoma. Lembrando de que se trata do sintoma psicanalítico, do sintoma tal como é concebido pela psicanálise desde Freud. Zizek, porém, não oferece em O mapa da Ideologia uma definição termo a termo do que é o sintoma na psicanálise. Ele nos dá, sim, uma chave explicativa deste conceito, por exemplo, na página 306: “Chegamos finalmente à dimensão do sintoma, pois uma de suas definições possíveis seria, igualmente, “uma formação cuja própria consistência implica um certo não-conhecimento por parte do sujeito”: o sujeito só pode “gozar com seu sintoma” na medida em que sua lógica lhe escapa”.

A partir disso o caminho trilhado pelo filósofo esloveno consiste em demonstrar como tal formação sintomática, cuja consistência implica um não-conhecimento por parte do sujeito, é inerente à teoria de Marx. Lembrando que esse caminho adotado por Zizek tem o propósito de superar duas correntes marxistas, ambas pautadas no princípio de que existiria uma consistência, o modo de produção capitalista, independentemente de qualquer desconhecimento por parte do sujeito. Não quer dizer, no entanto, que não ocorra um certo desconhecimento por parte do sujeito. Este desconhecimento existe, porém, ele é externo ao escopo da teoria, em si mesma consistente, sobre os modos de produção. Além disso, tal desconhecimento também teria, por sua vez, sua própria consistência. Trata-se do que comumente se chama de alienação. Ela já é prevista pela teoria, sendo assim um desconhecimento acidental que pode e deve ser transformado num conhecimento. Para a corrente economicista essa transformação deve ser dar através da consciência de classe, e para a corrente freudo-marxista, por meio da análise dos desejos inconscientes, os quais são passíveis de se tornarem conscientes.
Primeiramente Zizek demonstra através da análise de Sohn Rethel sobre a forma mercadoria, que o modo mesmo de produção capitalista se constitui de maneira sintomática. É inerente à troca efetiva de mercadoria um certo desconhecimento por parte do sujeito sobre o que está implicado nessa troca. Utilizando provisoriamente o conceito psicanalítico que opera a formação do sintoma, recalca-se o caráter mutável e concreto da mercadoria ao trocá-la. É como se a mercadoria não estivesse no tempo, e assim não estivesse sujeita às mudanças que surgem inevitavelmente com o passar do tempo, e como se ela fosse também totalmente destituída de qualidades empíricas, sendo reduzida a uma entidade abstrata. O recalque dessas características (representações) da mercadoria tem como conseqüência, por sua vez, o surgimento de um sintoma, a corporalidade imaterial do dinheiro. Sendo este último, enquanto sintoma, o signo do retorno do recalcado. Lembrando que, de acordo com a psicanálise, o sintoma é uma formação substitutiva. As representações que são recalcadas sempre deixam seu lastro, seja na forma propriamente de um sintoma corporal na histérica, sintoma este que é o substituto das representações recalcadas e serve assim de signo destas últimas, podendo então ser interpretado; seja na forma de idéias compulsivas no obsessivo, idéias aparentemente sem nexo com as representações recalcadas, mas que a substituem e servem também de signo do recalque. Nos dois casos, no sintoma e nas idéias obsessivas, trata-se igualmente do retorno do recalcado.
A questão é que, ao contrário do que comumente se pensa, o sintoma na psicanálise é inerente ao sujeito, ou seja, eliminá-lo significa eliminar o próprio sujeito. O sintoma é o que há de mais real no sujeito, real no mesmo sentido dado por Zizek ao caráter material do dinheiro, um material sublime, um corpo indestrutível e imutável que persiste para além da degradação do corpo físico. Da mesma forma, a troca de mercadoria e o sintoma que ela engendra, o dinheiro, são interdependentes. Este último é o que há de mais real no modo de produção capitalista.
Depois então de situar a formação sintomática no modo de produção capitalista com Sohn Rethel, Zizek demonstra como a ideologia também se constitui de forma sintomática. A ideologia maior do capitalismo dos direitos e deveres burgueses, ao contrário do que se pensa comumente, não obscurece a prática efetiva da exploração empreendida pelo capital. Supor isso é conceder à ideologia uma consistência que ela não possui. Na verdade, a ideologia, apesar de pretender uma universalidade integral, ela sempre engendra uma exceção que revela seu caráter sintomático. Por exemplo, a liberdade tão evocada pelo capitalismo, a qual se desdobra numa variedade de liberdades que pretendem esgotar todo tipo de liberdade possível, alcançado assim a universalidade, como a liberdade de fala e imprensa, liberdade de consciência, liberdade de comércio, liberdade política etc., inclui um tipo que, paradoxalmente, subverte tal universalidade. Trata-se da liberdade de vender sua própria força de trabalho. Tal liberdade, repetindo as próprias palavras do Zizek, “é o próprio oposto da liberdade efetiva: ao vender “livremente” sua força de trabalho, o trabalhador perde sua liberdade – o conteúdo real desse livre ato de vender é a escravização do trabalhador ao capital” (p.306).
Com esse apanhado geral é possível apontar que o marxismo de Zizek não enxerga nas teorias de Marx sobre o modo de produção e a ideologia capitalista uma consistência da qual se teria acesso por um conhecimento estritamente teórico que por si mesmo seria capaz de produzir transformações na realidade. Tanto o modo de produção quanto a ideologia capitalistas para alcançarem sua consistência implicam um certo desconhecimento por parte do sujeito. O grande diferencial da interpretação de Zizek em comparação com as duas correntes marxistas mencionadas mais acima é a introdução da noção/função de sujeito – que precisa ser especificada – que acompanha a noção psicanalítica de sintoma.  A partir dela, Zizek consegue sustentar que o mais fundamental em Marx ainda não foi devidamente entendido pelos marxistas, e que é justamente esse desconhecimento que explica, por exemplo, a não efetividade das tentativas de aplicar o marxismo na sociedade. Daí Zizek ser um renovador do marxismo, e defender Marx nos tempos atuais em que a tendência, sobretudo por parte daqueles que um dia levantaram a bandeira do marxismo, é considerá-lo caduco, senão perigoso.

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