Nota #4 [14/05/2013]

Diria que o problema da organização política contra “o capital”, ou seja, às formas de exploração que o modo capitalista de produção impõe ao trabalho, em Gramsci obedece as seguintes coordenadas: as massas, em sua própria realidade, possuem demandas que se parciais originalmente [“egoístico-passionais”] podem ser elevadas a um nível superior [“ético-político”]. Esta passagem, o momento das massas em “em si” para o “para si”, tem haver com a elevação de sua consciência de classe. A elevação de sua consciência é produto de um trabalho político-pedagógico realizado pelo Partido [referência que Gramsci mantém de Lênin], que procura formar, me parece, do interior das massas, “intelectuais orgânicos” – cujo motivo seria organizar, digamos, simbolicamente [ideologicamente] a prática das massas.

Pelas coordenadas postas por Gramsci com vistas à organização do processo revolucionário, sobretudo em formações históricas que chama de “ocidentais”, penso haver uma decidida importância no aspecto ideológico da dominação de classe. A “guerra de posição”, isto é, a disputa tática pelos espaços [político-institucionais ou político-simbólicos, digamos assim], enquanto condição do êxito da luta da classe trabalhadora, pressupõe que estes apresentam-se como expressões de um domínio de classe: deve então a luta revolucionária disputar o consenso, garantir a direção política e moral dos debates e ideias correntes [tomada das classes dominantes e de seus aparalhos privados de hegemonia; ou seja, dos veículos de difusão e universalização de suas posições particulares], em cada um destes espaços. A luta pela hegemonia, por esta direção, geraria, me parece, as condições culturais [ideológicas] para não apenas o florescimento, mas, sobretudo, o desenvolvimento das premissas que fazem parte socialismo – dando a ele consistência.

Pensando, em Lênin, após passar por Zizek, se bem entendo, me parece haver algumas questões. A aposta leninista [o que me parece ser explícito] é que, decididamente, “as massas” não estão aptas, por sua própria “anatomia”, em gerar efeitos efetivos no mundo; em Gramsci, ao contrário, ainda que seja claro que ele insista num trabalho a ser realizado nelas [isto é, “as massas enquanto massas não são capazes”], me parece ser claro que este trabalho depende delas no sentido de que ele, este trabalho, feito por um “agente externo” [já que é necessário formar nelas], tem como condição sua “anatomia” na medida em que deve obedecer ao quadro de referências simbólicas [espontânea] que a classe trabalhadora tem consigo [nela mesma].

Daqui, então, é que emerge a centralidade da ideologia para a práxis política [em Gramsci]. Esta centralidade parece não haver em Lenin. No primeiro devemos respeitar as próprias condições da realidade imediata; no segundo desconhecê-las seria uma necessidade. No primeiro, o trabalho a ser realizado, é o de mobilização [de potências adormecidas existentes no coração da classe trabalhadora que são, potencialmente, antisistêmicas]. No segundo, o trabalho é o de organização [da produção de potências que não estão na classe trabalhadora; se as que existem estão adormecidas, não estão despertas, logo não servem]. Na mobilização conta-se com a elevação da consciência dos trabalhadores; na organização não: a primeira exige que o trabalhador esteja ciente das condições de exploração em que está submetido e que se sinta [ele mesmo] assim para que reconheça na coletividade, para que conceda a ela legitimidade, de falar por sua demanda; na segunda, o engajamento pessoal, o reconhecimento transparente e esclarecido, não é uma condição da coletividade porque é ela mesma que põe a legitimidade da demanda.

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